Keywords
Endometriosis; Nutritional Therapy; Inflammation; Anti-
inflammatory Diet; Quality of Life.
1. INTRODUÇÃO
A endometriose é uma afecção ginecológica crônica, inflamatória e
estrogênio-dependente, definida pela presença e proliferação de
estroma e glândulas endometriais fora da cavidade uterina
(Arowojobi et al., 2022). O acometimento ocorre
predominantemente no peritônio pélvico, ovários, ligamentos
uterossacros e septo retovaginal, podendo atingir órgãos
extrapélvicos como o trato gastrointestinal e o sistema urinário
(Barnard et al., 2023). Estima-se que a doença afete cerca de 10% da
população feminina em idade reprodutiva globalmente, o que
equivale a mais de 190 milhões de mulheres no mundo e
aproximadamente sete milhões no Brasil (World Health
Organization, 2023).
Clinicamente, manifesta-se por um quadro sintomatológico
heterogêneo, cujos sintomas cardinais incluem a dismenorreia
secundária, dor pélvica crônica não menstrual, dispareunia de
profundidade, disquesia, disúria e infertilidade (Svanberg et al.,
2024). O atraso no diagnóstico — de sete a 10 anos — associado à
intensidade da dor acarreta elevado impacto na produtividade e na
saúde mental das pacientes (Santos et al., 2023).
A patogênese envolve mecanismos de disfunção imune,
angiogênese e alteração na sinalização hormonal (Nursaalam et al.,
2024). O ambiente peritoneal apresenta concentrações elevadas de
citocinas pró-inflamatórias, como o Fator de Necrose Tumoral Alfa
(TNF- α ), Interleucina-1 beta (IL-1 β ), Interleucina-6 (IL-6) e Interleucina-
8 (IL-8), associadas a uma maior produção de Espécies Reativas de
Oxigênio (ERO) (Mallard et al., 2022). A IL-6 e IL-8, possuem um papel
relevante na regulação de vários processos fisiológicos e patológicos,
para não provocar respostas inflamatórias, especialmente as
relacionadas com a inflamação crônica – que podem contribuir para
o desenvolvimento de doenças crônicas como o câncer (Ma et al.,
2017). Em especial, a interleucina-8, é muito reconhecida pelo seu
papel quimiotático no processo inflamatório (Freire et al., 2022).
A abordagem terapêutica tradicional fundamenta-se no bloqueio
hormonal e na ressecção cirúrgica (Eshre, 2022). No entanto, tais
intervenções possuem limitações ligadas a efeitos colaterais e taxas
de recorrência dos sintomas (Abraham et al., 2023). Nesse contexto, a
modificação do estilo de vida e a conduta nutricional estratégica
vêm sendo investigadas como ferramentas adjuvantes no manejo
clínico (Svaldi et al., 2025).
Padrões alimentares ricos em gorduras saturadas, gorduras trans e
açúcares refinados associam-se ao aumento de marcadores de
inflamação sistêmica (Mallard et al., 2022). Em contrapartida, dietas
ricas em fitoquímicos, antioxidantes, ácidos graxos poli-insaturados
ômega-3 e fibras, demonstram potencial para atenuar vias
inflamatórias e favorecer a eubiose intestinal (Barnard et al., 2023).
Diante do volume de dados sobre o tema, justifica-se a realização
deste estudo para organizar e analisar criticamente as evidências
científicas. O objetivo deste artigo é analisar a influência da nutrição
no manejo da endometriose, investigando seus impactos sobre os
processos inflamatórios, a modulação dos sintomas dolorosos e a
possível relação com a qualidade de vida das pacientes, com base
em evidências publicadas entre 2021 e 2026 em periódicos
indexados.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma Revisão Integrativa da Literatura (RIL), método que
se utiliza da síntese de resultados de uma pesquisa relacionados a
determinado tema, alcançando assim maior objetividade,
organização e abrangência de informações, para ampliar a
compreensão a respeito do tema.
A metodologia foi estruturada em seis etapas: 1) formulação da
pergunta de pesquisa; 2) amostragem e busca na literatura; 3)
categorização dos estudos; 4) avaliação metodológica e risco de viés;
5) interpretação dos resultados; e 6) síntese do conhecimento
(Soares et al., 2015).
A pergunta de pesquisa foi estruturada por meio do acrônimo PICO,
conforme Quadro 1:
Quadro 1. Estruturação da Pesquisa
P (População): I
(Intervenção):
C
(Comparação):
O (Desfecho /
Outcome):
Fonte: Elaborado pelas autoras, 2026.
Dessa maneira, apresenta-se a pergunta de pesquisa: "Qual a
eficácia das intervenções dietéticas na redução dos marcadores
inflamatórios, no alívio da dor pélvica e na melhora da qualidade de
vida em mulheres com endometriose?"
A busca bibliográfica foi realizada nas bases MEDLINE/PubMed,
SciELO, LILACS e ScienceDirect. Utilizaram-se os descritores
DeCS/MeSH combinados com os operadores booleanos AND e OR:
(endometriose OR endometriosis) AND (nutrição OR nutrition OR
dieta OR diet OR alimentação OR "dietary intervention"OR
"intervenção dietética" OR nutrientes OR nutrients) AND (inflamação
OR inflammation OR "marcadores inflamatórios" OR "inflammatory
markers" OR sintomas OR symptoms OR "dor pélvica" OR "pelvic
pain" OR "qualidade de vida" OR "quality of life").
Para a pesquisa na plataforma ScienceDirect foram utilizados
apenas sete termos de pesquisa em inglês, devido o campo de
pesquisa só permitir esse quantitativo, sendo: “endometriosis AND
nutrition AND diet AND inflammation AND dietary intervention AND
pelvic pain AND quality of life”.
2.1. Critérios de Inclusão e Exclusão
Mulheres
diagnosticadas
com
endometriose
em idade
reprodutiva
Intervenções
nutricionais,
abordagens
dietéticas
específicas
Dieta habitual,
placebo ou
intervenções
nutricionais
convencionais/n
ão
padronizadas.
Modulação de
marcadores
inflamatórios,
alteração nos
escores de dor
pélvica e impacto
nos índices de
qualidade de vida.
Foram incluídos: 1) Estudos primários (ensaios clínicos
randomizados, estudos de coorte, caso-controle) e revisões
sistemáticas/meta-análises; 2) Publicações nos idiomas português e
inglês; e 3) Artigos indexados no recorte temporal de 2021 a 2026.
2.2. Avaliação da Qualidade Metodológica e Risco de Viés
A qualidade dos estudos primários foi avaliada utilizando a
ferramenta Cochrane Risk of Bias (RoB 2), para ensaios clínicos
randomizados e a escala Newcastle-Ottawa Scale (NOS) para
estudos observacionais. As revisões sistemáticas foram avaliadas
pelo instrumento AMSTAR 2. Estudos com elevado risco de viés ou
fragilidade metodológica crítica foram desconsiderados na
composição da amostra final de cinco artigos.
2.3. Fluxograma do Processo de Seleção dos Estudos (Adaptado
do Prisma)
A Figura 1 apresenta o fluxo de seleção dos estudos utilizados na
revisão integrativa da literatura, demonstrando as etapas de
identificação, triagem e inclusão dos artigos.
Figura 1. Fluxograma de processos de seleção dos estudos
O Science Direct foi a Plataforma que mais trouxe resultados
quando aplicado os termos de pesquisa, no período compreendido,
sendo de 99 resultados. Porém, devido a necessidade de se resumir
os achados, foram utilizados apenas os anos de 2025 e 2026, do qual
em 2025 foi achado 11 resultados e em 2026 foram 35 achados,
totalizando 46 trabalhos encontrados. Foi aproveitado apenas um de
cada ano, ou seja, dois artigos. Os trabalhos de 2026 e 2025 que
foram excluídos em sua maioria foi devido ao foco do estudo estar
mais voltados para remédios e suplementação e o foco era dieta
anti-inflamatória e seus benefícios.
Na plataforma PubMed, 14 artigos foram analisados, dentro do
período estipulado. Desse quantitativo, três artigos estavam
alinhados ao objetivo proposto neste trabalho e 11 foram excluídos,
sendo cinco voltados para remédios e seis voltados para
suplementação.
Na plataforma ScIELO, com os termos utilizados para a pesquisa, não
foram encontrados resultados no período de 2021 a 2026. Foi
Fonte: Elaborado pelas autoras, 2026.
encontrado somente uma pesquisa de 2015, por este motivo, essa
plataforma não foi utilizada na pesquisa. Além disso, o sistema
LILACS foi consultado e ao buscar os termos o sistema apresentou
erros de leitura.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A síntese dos cinco estudos selecionados está categorizada e
seguida de uma análise crítica sobre os achados.
3.1. Caracterização dos Estudos Incluídos
O Quadro 2 apresenta a totalidade dos cinco artigos incluídos na
revisão integrativa, discriminados por título, autores/ano, país de
registro, base de dados, período, objetivo, metodologia e principais
resultados.
Quadro 2. Artigos selecionados
N1: Título: Ensaio Clínico: Efeito de
uma dieta com baixo teor de
FODMAP durante 28 dias nos
sintomas gastrointestinais
associados à endometriose
(EndoFOD) - Um estudo cruzado,
randomizado e controlado de
alimentação
Autores: Varney JE, So D, Gibson PR,
Rhys-Jones D, Lee YSJ, Fisher J, Moore
JS, Ratner R, Morrison M, Burgell RE,
Muir JG
Ano de Publicação: 2025
Tipo: Ensaio clínico
Base de Dados: PUBMED
País de Registro: Austrália e Nova Zelândia
Periódico: Aliment Pharmacol Ther
Objetivo: Comparar os efeitos de uma dieta de 28 dias com baixo teor de
oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis fermentáveis
(FODMAP) ou uma dieta controle na gravidade dos sintomas
gastrointestinais em indivíduos com endometriose e sintomas
gastrointestinais mal controlados.
Método: Neste ensaio clínico cruzado, randomizado e controlado, com
cegamento simples, randomizamos mulheres com idade ≥ 18 anos para 28
dias de uma dieta com baixo teor de FODMAPs (< 5 g/dia de FODMAPs) ou
uma dieta controle (20 g/dia de FODMAPs), ambas baseadas nas Diretrizes
Alimentares Australianas, antes de um período de washout de ≥ 28 dias e
posterior transição para a dieta alternativa. O desfecho primário foi a
proporção de respondedoras, definida pela melhora dos sintomas
gastrointestinais gerais em uma escala visual analógica de 100 mm. Os
desfechos secundários incluíram sintomas gastrointestinais, qualidade de
vida e estado psicológico.
Principais resultados e Recomendações: Das 35 mulheres randomizadas
(idade média de 31 anos; intervalo de confiança de 95% de 29 a 33 anos), 21
(60%) responderam à dieta com baixo teor de FODMAP, em comparação
com 9 (26%) à dieta controle (p = 0,008). Na 4ª semana da intervenção
dietética, os escores gerais de sintomas foram de 35 (21 a 42) mm no grupo
da dieta com baixo teor de FODMAP e de 58 (55 a 65) mm no grupo da
dieta controle (p < 0,001). Dor abdominal, distensão abdominal,
consistência das fezes e qualidade de vida, tanto para sintomas
gastrointestinais quanto para sintomas associados à endometriose, foram
significativamente melhores no grupo da dieta com baixo teor de
FODMAP em comparação com o grupo da dieta controle, mas não houve
melhora geral nos níveis de estresse percebido, ansiedade ou depressão.
N2: Título: Uma dieta cetogênica
modificada com TCM
(triglicerídeos de cadeia média)
como adjuvante ao tratamento
padrão pode aliviar os sintomas
clínicos em mulheres com
endometriose
Autores: Fatemeh Naeini, Fatemeh
Davari Tanha, Maryam Mahmoudi,
Ano de Publicação: 2025
Hastimansooreh Ansar, Mohammad
Javad Hosseinzadeh-Attar
Tipo: Ensaio clínico randomizado
Base de Dados: PUBMED
País de Registro: Registro Iraniano de Ensaios Clínicos
Periódico: BMC Saúde da Mulher
Objetivo: O objetivo do presente estudo foi examinar os efeitos da dieta
cetogênica modificada com Triglicerídeos De Cadeia Média (TCM) como
adjuvante ao tratamento padrão em mulheres com endometriose.
Método: Este é um ensaio clínico randomizado e controlado com duração
de 12 semanas, realizado com 50 pacientes com endometriose atendidas
na clínica de infertilidade do complexo hospitalar Yas, em Teerã, Irã. As
participantes foram alocadas aleatoriamente em dois grupos: um grupo
de intervenção, que recebeu dieta cetogênica modificada com TCM mais
o tratamento padrão (n = 25), e um grupo controle, que recebeu apenas o
tratamento padrão (n = 25). Os sintomas clínicos, parâmetros
antropométricos, perfil lipídico e aminotransferases séricas foram
avaliados no início e no final do estudo. A análise estatística foi realizada
com o software SPSS versão 27, e um valor de p < 0,05 foi considerado
estatisticamente significativo.
Principais resultados e Recomendações: Ao final, 44 pacientes, incluindo
19 indivíduos no grupo de intervenção e 25 no grupo controle, concluíram
o estudo. A dispareunia e a disquesia reduziram significativamente no
grupo da dieta cetogênica modificada com TCM em comparação ao
grupo controle ao final do estudo (P = 0,02 e P = 0,001, respectivamente).
Além disso, houve uma redução marginalmente significativa nos valores
finais de dor pélvica (P = 0,07). Contudo, não foram detectadas diferenças
significativas nos valores finais dos índices antropométricos, incluindo
peso, IMC e circunferência da cintura, níveis séricos de TG, CT, HDL-C, LDL-
C e aminotransferases, incluindo ALT e AST.
N3: Título: Eficácia de uma
intervenção dietética anti-
inflamatória e terapia cognitivo-
comportamental na
endometriose: protocolo para
um ensaio clínico randomizado
controlado
Autores: Emma Huijs, Loutje van der
Sman, Lieke Wirken, Heidi Smj
Delcliseur, Esther G. Inverno, Nicole M
de Roos, Renate G van der Molen,
Joukje M Oosterman, Paola Viganò,
André W Horne, Marie-Madeleine
Dolmans, Janneke S Hoogstad-van
Evert, Annemiek W Nap
Ano de Publicação: 2026
Tipo: Ensaio clínico randomizado controlado
Base de Dados: PUBMED
País da Produção: Holanda
Periódico: BMJ Open
Objetivo: Este estudo foi concebido para investigar a eficácia de duas
intervenções no estilo de vida e da combinação de ambas: uma
Intervenção Dietética Anti-Inflamatória (IDAI) pode melhorar a função das
células imunológicas e reduzir a inflamação, resultando em melhor QVRS
e alívio da dor.
Método: O estudo Dor na Endometriose e sua Relação com o Estilo de
Vida (PEARL) é um ensaio clínico randomizado controlado com cinco
braços e um desenho fatorial pré-pós com dois fatores: uma Entrevista de
Informática em Grupo (AIDI) e TCC. A população do estudo será composta
por 250 mulheres na pré-menopausa, das quais 200 têm diagnóstico de
endometriose e apresentam sintomas de dor, e 50 são Controles
Saudáveis (CS). As mulheres com endometriose serão recrutadas em um
hospital universitário terciário e cinco hospitais secundários na Holanda.
Elas serão randomizadas (1:1:1:1) em quatro grupos de intervenção:
cuidados padrão (CP) (grupo CP), CP e AIDI (grupo CP + AIDI), CP e TCC
(grupo CP + TCC) e CP, AIDI e TCC (grupo CP + AIDI + TCC). As mulheres
com endometriose visitarão o hospital duas vezes durante o período de
intervenção, no início (T0) e no final (T2) do período de intervenção de 13
semanas. O Grupo Controle (GC) não será submetido a nenhuma das
intervenções e terá apenas uma consulta hospitalar (T0). As participantes
responderão a questionários sobre sintomas de dor, qualidade de vida
relacionada à saúde (QVRS), nível de atividade física, sono, qualidade da
dieta, percepções sobre a dor e estresse nos momentos T0 e T2. Além
disso, elas serão instruídas a coletar efluente menstrual, swab vaginal e
amostra fecal. Durante as consultas de acompanhamento, serão coletadas
amostras de sangue periférico e de cabelo do couro cabeludo.
Principais resultados e Recomendações: O desfecho primário é a dor
média, mensurada por meio de uma escala numérica de classificação. Os
desfechos secundários focam na QVRS, inflamação, características do
sistema imunológico, microbioma vaginal e intestinal e níveis de cortisol
no cabelo. Considera-se que esses desfechos refletem os mecanismos
subjacentes ao efeito de ambas as intervenções sobre o desfecho primário.
As amostras biológicas e os questionários das mulheres com
endometriose e do GC serão comparados para estabelecer as diferenças
nos desfechos secundários.
N4: Título: Adesão à dieta
mediterrânea e sintomas de
endometriose: implicações para
o manejo nutricional
Autores: Raquel Alarco-Rosales, Laura
Martín-Manchado, Miriam Sanchez-
Sansegundo, José Antonio Hurtado-
Sanchez, Antonio Manuel Moya-Yeste
e, Ana Zaragoza-Martí
Ano de Publicação: 2026
Tipo: Artigo de Pesquisa
Base de Dados: Science Direct
País da Produção: Espanha
Periódico: Journal of Gynecology Obstetrics and Human Reproduction
Objetivo: Examinar a associação entre adesão à dieta mediterrânea,
sintomatologia de endometriose e qualidade de vida relacionada à
doença.
Método: Estudo transversal com 254 mulheres com endometriose
recrutadas através de associações de pacientes espanholas. Utilizou-se o
MEDAS (14 itens) para avaliar adesão à dieta mediterrânea e o EHP-30 para
qualidade de vida. Modelos de regressão logística binária e regressão
linear múltipla foram aplicados.
Principais resultados e Recomendações: Pontuações MEDAS mais altas
associaram-se a menores chances de dor pélvica (OR=0,85; IC 95%: 0,73–
Fonte: Elaborado pelas autoras, 2026.
1,00; p=0,044) no modelo totalmente ajustado. A associação com fadiga foi
atenuada após ajuste mais amplo (OR=0,84; p=0,062). MEDAS não se
associou independentemente com nenhum domínio do EHP-30,
enquanto dor pélvica e fadiga associaram-se consistentemente a pior
qualidade de vida.
N5: Título: Características da dieta
em pacientes com endometriose
Autores: Agostino Ruotolo, Silvia
Vannuccini 1, Tommaso Capezzuoli,
Francesca Pampaloni, Sofia Cecere,
Ernesto Gallucci e Felice Petraglia
Ano de Publicação: 2025
Tipo: Artigo de Pesquisa
Base de Dados: Science Direct
País da Produção: Itália
Periódico: Revista de Endometriose e Distúrbios Uterinos
Objetivo: O estudo teve como objetivo avaliar os hábitos alimentares de
pacientes com endometriose recém-diagnosticada em comparação com
controles saudáveis, focando na frequência e quantidade de várias
categorias de alimentos, incluindo itens pró e anti-inflamatórios.
Método: Um estudo observacional transversal foi conduzido com 80
pacientes com endometriose (diagnosticadas por ultrassom transvaginal
e/ou ressonância magnética) e 80 mulheres controle pareadas por idade
(18-50 anos). Um questionário autoaplicável com 39 perguntas investigou
tipos de alimentos, frequência e tamanho das porções (par2230, par2245).
Os dados foram analisados usando testes estatísticos apropriados, com p <
0,05 considerado significativo.
Principais resultados e Recomendações: Mulheres com endometriose
consumiram mais frequentemente carne vermelha, presunto cru e
mortadela (p < 0,01), além de maior ingestão diária de sal. Consumiram
menos frequentemente vegetais verdes, vermelhos e brancos (p < 0,01). O
padrão alimentar mostrou desequilíbrio desfavorável entre alimentos pró
e anti-inflamatórios.
Os trabalhos analisaram diferentes estratégias nutricionais, como
dietas com baixo teor de FODMAP, dieta cetogênica, dieta anti-
inflamatória e dieta mediterrânea, relacionando-as principalmente à
redução dos sintomas da endometriose, dor, sintomas
gastrointestinais, influenciando indiretamente na qualidade de vida
das pacientes.
3.2. Análise Crítica e Discussão Integrativa dos Achados
3.2.1. Mecanismos de Ação e Modulação Inflamatória
Os estudos analisados indicam que a alimentação pode contribuir
para o manejo de sintomas da endometriose, principalmente dor e
manifestações gastrointestinais. Entretanto, os resultados variam
conforme o tipo de intervenção e o desfecho avaliado, não sendo
possível estabelecer uma única estratégia alimentar como
universalmente eficaz. Para os autores Varney et al., (2025), foram
identificados efeitos positivos da dieta com baixo teor de FODMAP,
com melhora dos sintomas gastrointestinais, dor abdominal,
distensão abdominal e qualidade de vida. Já para Naeini et al., (2025),
observaram que uma dieta cetogênica modificada com TCM reduziu
significativamente a dispareunia e a disquesia, embora não tenha
produzido diferenças significativas em peso, IMC, perfil lipídico ou
marcadores hepáticos.
Os achados sobre a dieta mediterrânea também apontam uma
possível relação entre alimentação e sintomas. De acordo com
Alarco-Rosales et al., (2026), verificaram que a maior adesão à dieta
mediterrânea esteve associada a menores chances de dor pélvica.
Entretanto, não houve associação independente com os domínios
de qualidade de vida, reforçando que esta é influenciada por
diversos fatores além da alimentação. De forma complementar,
Ruotolo et al., (2025), identificaram entre mulheres com
endometriose, o maior consumo de carne vermelha, embutidos, sal
e o menor consumo de vegetais. Embora esse resultado sugira uma
relação entre padrões alimentares e a doença, o caráter transversal
do estudo não permite estabelecer causalidade.
O protocolo PEARL, de Huijs et al., (2026), amplia essa discussão ao
investigar os efeitos de uma intervenção dietética anti-inflamatória
sobre dor, qualidade de vida, inflamação, sistema imunológico e
microbioma. Entretanto, por se tratar de um protocolo, seus
resultados de eficácia ainda não estão disponíveis.
De maneira integrada, os estudos sugerem que intervenções
nutricionais podem atuar como estratégia complementar no
manejo da endometriose, especialmente na redução de
determinados sintomas. Contudo, a heterogeneidade dos métodos,
das intervenções e dos desfechos, além das amostras reduzidas em
alguns ensaios, limita a generalização dos resultados. Assim, são
necessários estudos maiores e de maior duração para esclarecer
quais estratégias alimentares apresentam benefícios mais
consistentes e para quais perfis de pacientes.
3.2.2. Evidências e Desenhos Metodológicos
As evidências variam conforme o desenho metodológico dos
estudos analisados:
1. Evidência Observacional: Os estudos observacionais
encontrados apontam uma associação consistente entre
padrões alimentares e manifestações da endometriose.
Alarco-Rosales et al., (2026), em uma amostra de 254
mulheres, identificaram que maior adesão à dieta
mediterrânea esteve associada a menores chances de dor
pélvica. Da mesma forma, Ruotolo et al., (2025) observaram,
em mulheres com endometriose, maior consumo de carne
vermelha, embutidos e sal, acompanhado de menor consumo
de vegetais. Esses achados reforçam a possível relação entre
qualidade da alimentação e sintomatologia da doença.
2. Evidência Observacional e Funcional: Os ensaios clínicos
fornecem evidências funcionais de que determinadas
intervenções dietéticas podem produzir mudanças em
sintomas específicos. A dieta com baixo teor de FODMAP
apresentou melhora dos sintomas gastrointestinais, dor
abdominal, distensão e qualidade de vida, enquanto a dieta
cetogênica modificada com TCM reduziu significativamente a
dispareunia e a disquesia. Entretanto, os efeitos não foram
observados em todos os desfechos, demonstrando que a
resposta à intervenção nutricional pode variar de acordo com
o tipo de dieta e as características clínicas das pacientes.
3. Revisões Sistemáticas e Meta-análises: Trabalhos destacam
que, embora o alívio da dor seja observado, existe considerável
heterogeneidade nos protocolos de intervenção, variando no
tempo de tratamento (oito a 16 semanas), e nos tamanhos
amostrais (geralmente até 260 participantes).
3.2.3. Limitações e Risco de Viés
A análise da amostra dos cinco artigos revelou limitações
metodológicas recorrentes, como: 1) amostras pequenas em alguns
estudos, o que limitou a generalização dos resultados; 2)
heterogeneidade metodológica, com diferentes dietas, desenhos e
desfechos; 3) possibilidade de viés de seleção e autorrelato,
principalmente nos estudos observacionais; 4) Risco de viés de
relato, decorrente do uso da Escala Visual Analógica (EVA) para
mensuração da dor, instrumento suscetível ao efeito placebo e a
variações individuais.
A EVA, é dividida em três categorias, sendo leve, moderada e
intensa, conforme figura abaixo:
Figura 2. Escala Visual Analógica
Para utilizar a EVA, o profissional deve questionar o paciente quanto
ao grau de dor sendo que zero é o mesmo que ausência total de dor
e 10 é o nível máximo suportável de dor (Governo de São Paulo,
2026).
A EVA auxilia na aferição da intensidade da dor que o paciente está
sentindo, é considerado um instrumento importante para verificar a
evolução do paciente tanto no tratamento quanto no atendimento.
A Escala também é utilizada para se avaliar se o tratamento está
adequado, bem como se os procedimentos estão surtindo efeito
(Governo de São Paulo, 2026).
4. CONCLUSÃO
Fonte: Govern o de São Paulo, 2026.
No presente estudo, foram analisados trabalhos científicos que
tratavam acerca da influência da nutrição no manejo da dor de
endometriose, com foco na redução da inflamação e alívio da dor
pélvica. De uma forma geral, a análise dos estudos demonstrou uma
melhora da qualidade de vida devido as intervenções nutricionais,
sendo assim, se tornando uma estratégia complementar ao
tratamento convencional.
Em síntese, os estudos sugerem que intervenções nutricionais
individualizadas podem representar uma estratégia complementar
promissora no manejo da endometriose, principalmente para
redução de sintomas gastrointestinais, dor e melhora da qualidade
de vida. Entretanto, a heterogeneidade das intervenções, o número
reduzido de participantes em alguns ensaios e a presença de
estudos observacionais limitam a generalização dos resultados.
Portanto, as evidências disponíveis apoiam a investigação e
utilização criteriosa da terapia nutricional como parte do cuidado
multidisciplinar, mas reforçam a necessidade de ensaios clínicos
maiores, com acompanhamento prolongado e protocolos dietéticos
padronizados, para determinar quais padrões alimentares são mais
eficazes e para quais perfis de pacientes.
No que tange à problemática, os achados indicam que as
intervenções dietéticas podem contribuir com a diminuição da dor
pélvica provocada pela doença, podendo resultar na melhora da
qualidade de vida dessas mulheres, quando comparados com
condições habituais de alimentação ou placebo em determinados
contextos. Os achados não permitiram estabelecer apenas uma
única intervenção nutricional como padrão para todas as pacientes.
Por sua vez, os efeitos devem ser analisados como complementar ao
tratamento médico, levando em consideração a individualidade
clínica e nutricional de cada paciente.
De modo geral, a nutrição se apresenta como uma ferramenta em
potencial no manejo da endometriose, sendo encarada como um
elemento de uma abordagem integrada que envolve aspectos
clínicos, nutricionais, físicos e psicossociais. Tendo isso em vista, é
necessário novos estudos clínicos, com uma amostra maior,
padronizações maiores das intervenções adotadas e um
acompanhamento longo, para determinar com maior precisão a
eficácia dos ensaios.
Portanto, conclui-se que a alimentação e a suplementação dos
nutrientes pode ser um fator importante para o manejo da
endometriose, atuando sobre a desinflamação, aliviando os
sintomas dolorosos e contribuindo com a melhoraria da qualidade
de vida.
Ressalta-se que sua utilização deve ser realizada de acordo com as
necessidades de cada paciente, deve ser orientada por um
profissional habilitado, não sendo substituído por terapias
convencionais.
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CONSELHO FEDERAL DE NUTRICIONISTAS (CFN). Resolução CFN nº
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Artigo apresentado ao Curso de Graduação em Nutrição da
Universidade Nilton Lins, como requisito parcial para obtenção do
Grau de Bacharel em Nutrição.
1 Graduanda em Nutrição. Universidade Nilton Lins – UNL
2 Graduanda em Nutrição. Universidade Nilton Lins – UNL
3 Graduanda em Nutrição. Universidade Nilton Lins – UNL
4 Docente do curso de Nutrição da Universidade Nilton Lins – UNL
5 Orientadora do curso de Nutrição da Universidade Nilton Lins –
UNL