Qual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática

In: Femina · 2025 · vol. 53(7) , pp. 952–958 · doi:10.61622/0100-7254537202512 · W4413983741
article OA: bronze CC0
AI-generated summary by claude@2026-06, 2026-06-10

This systematic review compiles and analyzes studies on how endometriosis-associated sexual dysfunction impacts intimacy and relationship quality, identifying key influencing factors and gaps in clinical management.

One-sentence paraphrase of the abstract; not a substitute for reading it. No clinical advice. How this works

AI-generated deep summary by claude@2026-06, 2026-06-10 · read from full text

This systematic review aimed to compile and analyze recent studies on how sexual dysfunction associated with endometriosis affects intimacy and couple relationship quality, using a PRISMA-guided search of English-language full-text studies from MEDLINE, LILACS, and SciELO. Across included studies (11 articles after screening), endometriosis was associated with significant negative effects on women’s sexual life, with dyspareunia and sexual dysfunction highlighted as key elements, and with relationship outcomes such as sexual dissatisfaction, conflict, and even separation-related thoughts linked to sexual satisfaction. Several studies also reported dyadic differences in perceptions between male and female partners regarding satisfaction and desired or actual sexual frequency, and showed roles for factors like depression, social support, and avoidance of sex. Major caveats explicitly stated include limiting evidence to English-language studies and not performing a meta-analysis due to heterogeneity, limiting generalization. This paper is centrally about endometriosis — it systematically reviews how endometriosis-related sexual dysfunction impacts sexuality and romantic relationship dynamics.

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Abstract

RESUMO Objetivo Compilar e analisar estudos existentes sobre como a disfunção sexual associada à endometriose influencia a intimidade e a qualidade dos relacionamentos. Os objetivos incluem identificar os principais fatores que afetam a sexualidade e o relacionamento, destacando lacunas no manejo clínico e no suporte aos casais impactados pela endometriose. Métodos Esta revisão sistemática foi […]
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Keywords

Endometriosis; Sexual function; Interpersonal relations Submetido: 21 de janeiro de 2025 Aceito: 3 de abril de 2025 1. Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil. 2. Hospital Felício Rocho, Belo Horizonte, MG, Brasil. Conflitos de interesse: Nada a declarar. Autor correspondente: Beatriz Maria Monteiro Sousa [email protected] Como citar: Sousa BM, Pontes LA, Cunha LF, Falcão Júnior JO. Qual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática. Femina. 2025;53(7):952-8. Qual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática What is the impact of endometriosis on sexuality and couple relationship: a systematic review Beatriz Maria Monteiro Sousa¹, Laura Avellar Chaves Pontes¹, Letícia Fernandes Cunha 1, João Oscar de Almeida Falcão Júnior2 RESUMO Objetivo: Compilar e analisar estudos existentes sobre como a disfunção sexual as- sociada à endometriose influencia a intimidade e a qualidade dos relacionamen - tos. Os objetivos incluem identificar os principais fatores que afetam a sexualidade e o relacionamento, destacando lacunas no manejo clínico e no suporte aos casais impactados pela endometriose. Métodos: Esta revisão sistemática foi conduzida de acordo com as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). Foram selecionados artigos na língua inglesa utilizando a combinação dos descritores “endometriosis” e “sexuality”, dos quais foram anali- sados os títulos e resumos para posterior leitura na íntegra e seleção baseada nos critérios de inclusão e exclusão. Resultados: Verificou-se nos estudos analisados que os parceiros masculinos e femininos parecem ter perspectivas divergentes so- bre a satisfação sexual em geral e a frequência desejada de contatos sexuais. O efeito da endometriose na vida sexual é significativo, sendo a dispareunia um dos principais sintomas da doença. Conclusão: A endometriose tem impacto profundo e multifacetado na sexualidade e nos relacionamentos amorosos. É fundamental que profissionais de saúde abordem esses aspectos em seus atendimentos, pro - movendo um espaço para discussões sobre sexualidade e relacionamento.

Abstract

Objective: Compile and analyze existing studies on how sexual dysfunction associated with endometriosis influences intimacy and relationship quality. The objectives include identifying the main factors affecting sexuality and relationships, highlighting gaps in clinical management and support for couples impacted by endometriosis. Methods: This systematic review was conducted following the Preferred Reporting Items for Syste- matic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) guidelines. Articles in English were selected using the combination of the descriptors “endometriosis” and “sexuality,” and titles and abstracts were analyzed for subsequent full reading and selection based on inclusion and exclusion criteria. Results: The analyzed studies indicated that male and female partners seem to have divergent perspectives on overall sexual satisfaction and the desired frequency of sexual contact. The effect of endometriosis on sexual life is signifi- cant, with dyspareunia being one of the primary symptoms of the disease. Conclusion: Endometriosis has a profound and multifaceted impact on sexuality and romantic re- lationships. It is essential for healthcare professionals to address these aspects in their care, promoting a space for discussions about sexuality and relationships. Qual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática What is the impact of endometriosis on sexuality and couple relationship: a systematic review | 953 FEMINA 2025;53(7):952-8 INTRODUÇÃO A endometriose é uma doença ginecológica definida pela presença de implantes endometriais (glândula e/ou estroma) fora do útero, com predomínio, mas não ex - clusivo, na pelve feminina. Consiste em uma condição inflamatória crônica, estrogênio-dependente, que aco - mete principalmente mulheres em idade fértil.(1) O espectro clínico dessa doença é amplo, e os sinto - mas podem variar de mínimos a severamente debilitan- tes. No entanto, mulheres com endometriose apresen - tam frequentemente, durante seus anos reprodutivos, dor pélvica (incluindo dismenorreia e dispareunia), in - fertilidade ou massa ovariana.(2) Embora a endometriose seja amplamente estudada pelos seus sintomas físicos, como dor e dispareunia, este artigo destaca de forma inédita o impacto conjunto sobre sexualidade, saúde emocional e a perspectiva dos parceiros, temas que ainda carecem de maior explora - ção científica. Todos esses sinais impactam a vida social e profissional das mulheres, bem como seus relaciona - mentos e vida íntima.(3) Dessa forma, a endometriose também impacta o par- ceiro da paciente. Estudos qualitativos indicaram altos índices de depressão e ansiedade entre esses parceiros, além de sentimentos de impotência, frustração, preocu- pação e raiva. Os parceiros de mulheres com endome - triose relataram que a vida sexual, a intimidade e o rela- cionamento do casal foram prejudicados pela condição, o que pode gerar sérios problemas na relação conjugal. Esses problemas podem se intensificar quando há pou- ca comunicação sobre sexualidade, presença de disfun- ção sexual e evitação das relações íntimas. A endome - triose também pode comprometer o relacionamento do casal, afetando o apoio social que os parceiros mascu - linos oferecem às mulheres, o que pode impactar nega- tivamente a união do casal. Contudo, ainda há escassez de estudos que reconheçam o impacto da endometriose sobre os parceiros masculinos, o que também limita o suporte social oferecido a eles.(3-6) MÉTODOS Os dados foram coletados a partir de uma revisão siste- mática da literatura, realizada no período de outubro a novembro de 2024. As bases de dados utilizadas foram Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library Online (SciELO). Como descritores, foram utilizados os termos em inglês: “endometriosis” AND “sexual function” AND “relationship”. A pesquisa foi limitada a estudos pu- blicados nos últimos cinco anos, em inglês, disponíveis na íntegra, que apresentassem informações pertinentes para a resposta da pergunta norteadora. Os critérios de inclusão determinaram que apenas artigos originais publicados em inglês nos últimos cinco anos, disponíveis na íntegra, e que abordassem o impacto da endometriose na função sexual e na relação do casal seriam incluídos. Foram excluídos dissertações, revisões de literatura, artigos duplicados, não originais, ou aque- les que não respondiam à pergunta norteadora ou não estavam disponíveis na íntegra. Essa exclusão seguiu cri- térios de qualidade para minimizar vieses. Contudo, re - conhece-se que a limitação aos estudos em inglês pode reduzir a representatividade global dos resultados. O processo de seleção seguiu uma análise criteriosa para garantir a relevância e a qualidade dos estudos. Os dados foram extraídos de forma sistemática a par- tir dos artigos selecionados. Esse processo envolveu a leitura completa dos textos para identificar informações relacionadas à pergunta norteadora, bem como aos ob- jetivos do estudo. As informações extraídas incluíram detalhes sobre a população, contexto, interesse, desfe - chos e intervenções, conforme a estratégia PICO. A síntese dos dados foi realizada qualitativamente, com foco em uma análise descritiva e narrativa dos re - sultados. Esse processo foi estruturado em três etapas principais: extração dos dados relevantes, análise temá- tica dos conteúdos e integração dos achados em uma síntese narrativa. Os estudos analisados destacaram o impacto significativo da endometriose na sexualidade das mulheres e nas dinâmicas de seus relacionamen - tos íntimos, oferecendo uma visão abrangente sobre as implicações dessa condição na qualidade de vida dos casais. Para analisar e sintetizar os dados dos estudos incluídos, será realizada uma síntese qualitativa, com o objetivo de interpretar e integrar as evidências de ma - neira descritiva e narrativa. A síntese qualitativa será de- senvolvida em três etapas principais: extração de dados, análise temática e síntese narrativa dos resultados. RESULTADOS O levantamento de dados foi realizado por meio de uma leitura exploratória, eliminando-se os artigos que não continham todos os descritores selecionados. Não foi realizada metanálise devido à heterogeneidade dos estudos, o que limita a generalização dos resultados. Dessa forma, após a aplicação dos critérios de inclu - são, um total de 57 artigos científicos foram identifica - dos nas bases de dados MEDLINE, SciELO e BVS. Desses, excluíram-se artigos de revisão e metanálise. Também foi feita uma breve leitura dos resumos de cada artigo, excluindo-se aqueles que não eram relevantes ao tema proposto, permanecendo 18 artigos. Posteriormente, foram avaliados os textos completos, e apenas 11 arti - gos responderam à questão norteadora e definiram a amostra principal da presente revisão, como observado na figura 1. Os resultados podem ser vistos na tabela 1. DISCUSSÃO A disfunção sexual é um dos aspectos mais impactan - tes da endometriose na vida das mulheres, refletindo diretamente na insatisfação conjugal. Entre os sintomas Sousa BM, Pontes LA, Cunha LF, Falcão Júnior JO 954 | FEMINA 2025;53(7):952-8 Quadro 1. Síntese dos artigos resumidos Autor e ano de publicação Tipo de estudo Objetivos Resultados Rao et al. (2023)(5) Estudo transversal Avaliar a prevalência de disfunção sexual e desarmonia conjugal em pacientes com endometriose, incluindo diagnóstico e tratamento. A maioria das participantes (n96) relatou satisfação conjugal ruim a muito grave, com pontuação MV FSFI acima de 5. Disfunção sexual e insatisfações conjugais são comuns e interligadas em mulheres com endometriose. El Hadad et al. (2024)(6) Estudo caso-controle Avaliar a parceria no contexto da endometriose e seus sintomas, considerando as perspectivas de ambos os indivíduos envolvidos. Mulheres com endometriose relataram mais pensamentos de separação ligados à satisfação sexual (34,9%/28,3%) e mais conflitos de parceria que mulheres sem endometriose. Van Eickels et al. (2024)(3) Estudo transversal Determinar a associação de diferentes preditores de parceria e satisfação sexual e efeitos diádicos em casais com endometriose e infertilidade. A depressão afetou negativamente a satisfação com a parceria em homens e a satisfação sexual em mulheres. O apoio social teve efeito positivo na satisfação com a parceria entre as mulheres. Privitera et al. (2023)(4) Estudo transversal Medir o sofrimento sexual, a evitação do sexo e o impacto negativo percebido dos sintomas da endometriose na vida sexual das mulheres e examinar essas relações. 80,3% das participantes relataram impacto negativo da endometriose na vida sexual, e 67,5% evitaram relações sexuais por causa dela. Helfenstein et al. (2023)(7) Estudo transversal Avaliar perspectivas divergentes de homens e mulheres sobre aspectos da sexualidade no contexto da endometriose. Casais lidando com endometriose têm percepções diferentes sobre sua sexualidade, com tendência a superestimar a satisfação do parceiro. Homens subestimam a frequência com que suas parceiras mantêm relações sexuais apesar do desconforto. Isso reforça a necessidade de aconselhamento sexual que inclua ambos no suporte médico. Schick et al. (2022)(8) Estudo transversal Explorar as inter-relações em casais com endometriose em questões de sofrimento psicológico, satisfação sexual e de parceria e apoio social. Altas pontuações de depressão, ansiedade e estresse em mulheres correlacionaram-se com maior impacto da dor por endometriose em homens, enquanto estresse e depressão elevados em homens estiveram associados a maior impacto em mulheres. Sullivan-Myers et al. (2023)(9) Estudo transversal Investigar a relação entre imagem corporal (positiva e negativa), sofrimento sexual e o papel da autocompaixão. Mais de 80% relataram sofrimento sexual significativo e alta perturbação da imagem corporal. Distúrbio da imagem teve efeito moderado no sofrimento sexual, enquanto a autocompaixão teve efeito inverso mais fraco, sem efeito moderador evidente. Busca em base de dados com descritores Mesh/Desh Critérios de inclusão Exclusão de artigos de revisão e/ ou resumos irrelevantes ao tema Artigos restantes que responderam à questão norteadora após leitura do texto completo N(57) Figura 1. Representação esquemática da escolha de artigos Qual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática What is the impact of endometriosis on sexuality and couple relationship: a systematic review | 955 FEMINA 2025;53(7):952-8 mais relatados, a dispareunia, dor durante a relação se- xual, se destaca como o principal fator limitante na vida íntima das pacientes. Estudos, como o de Privitera et al. (2023),(4) mostram que mais de 80% das mulheres acre - ditavam que os sintomas de endometriose afetavam ne- gativamente sua vida sexual, enquanto 67,5% relataram evitar relações sexuais por conta da dor. Essa condição não apenas reduz a frequência dos encontros íntimos, mas também cria barreiras psicológicas, como medo do desconforto e frustração, o que dificulta a intimidade.(4) Juntamente a isso, o impacto na vida conjugal é igualmente significativo. Mulheres com endometriose frequentemente enfrentam insatisfação nos relacio - namentos, como descrito por Rao et al. (2023), (5) que encontraram que a maioria das participantes relatou problemas conjugais graves. A dor crônica e a evitação do sexo frequentemente resultam em um descompas - so de expectativas entre os parceiros, aumentando os conflitos e a distância emocional. Embora a dispareunia esteja fortemente relacionada à qualidade da parceria no contexto da endometriose, outros fatores e sinto - mas influenciam essa associação. Segundo o estudo de El Hadad et al. (2024),(6) a fadiga, sintoma prevalente na endometriose, foi associada à menor qualidade da par- ceria entre casais e à dificuldade em lidar com demons- trações de afeto.(5,6) Outro motivo para os diferentes níveis de satisfação pode ser questões relacionadas à fertilidade, o que é conhecido por estar associado à redução da satisfação no relacionamento e sexual, além de maior prevalência de disfunção sexual.(7) A endometriose causa dificuldades emocionais e se - xuais não apenas nas mulheres afetadas, mas também nos seus parceiros, que frequentemente relatam senti - mentos de rejeição, frustração e impotência diante da situação, como aponta Schick et al. (2022).(8) Esses sen- timentos de estresse e ansiedade acabam sendo com - partilhados, criando um ciclo de insatisfação no rela - cionamento. El Hadad et al. (2024)(6) mostraram que, em 29% dos casos em que os homens cogitaram terminar o relacionamento, a endometriose foi considerada a prin- cipal causa. Muitos parceiros se sentiram angustiados ao ver suas companheiras enfrentando a dor, demons - traram preocupação com a saúde delas e sentiram-se impotentes, sem, no entanto, diminuir a capacidade de- las de lidar com a situação.(6) Em se tratando de saúde mental, a endometriose im- pacta profundamente a saúde psicológica das mulheres, criando uma relação intrínseca entre o sofrimento emo- cional e os desafios enfrentados na sexualidade e nos relacionamentos conjugais. Essa relação é multifaceta - da, envolvendo aspectos como depressão, ansiedade, estresse e autoestima, que muitas vezes são agravados pelos sintomas crônicos da doença.(3) Mulheres com endometriose frequentemente en - frentam elevados níveis de depressão e ansiedade, Autor e ano de publicação Tipo de estudo Objetivos Resultados Kfoury et al. (2023)(10) Estudo caso controle Avaliar o estado emocional e o aspecto relacional íntimo da vida em mulheres libanesas que vivem com endometriose. Mulheres sem endometriose tiveram pontuação de satisfação sexual significativamente maior em comparação com aquelas com endometriose. Maior satisfação do casal e responsividade do parceiro foram associadas a maior satisfação sexual, enquanto maior depressão e a presença de endometriose foram associadas a menor satisfação sexual. Facchin et al. (2021)(11) Estudo transversal Explorar as associações entre relacionamentos íntimos, saúde psicológica e variáveis relacionadas à endometriose, como dor pélvica e infertilidade. A satisfação relacional e o enfrentamento diádico estão ligados à saúde psicológica. O maior impacto da endometriose em relacionamentos íntimos correlacionou- se com dor pélvica mais intensa, especialmente dispareunia. Pereira et al. (2021)(12) Estudo transversal Examinar o efeito indireto da frequência da atividade sexual e da presença de infertilidade na relação entre variáveis clínicas e satisfação conjugal/sexual. Há um efeito direto entre a percepção da gravidade dos sintomas, satisfação conjugal e morbidade psicológica das mulheres. A satisfação sexual teve efeito direto na satisfação conjugal das mulheres e de seus parceiros, prevendo menos morbidade psicológica em ambos. Maiorana et al. (2023)(13) Estudo observacional Avaliar a relação entre variáveis psicológicas e duração da endometriose não tratada em uma amostra de mulheres com endometriose. Foi encontrada uma correlação entre endometriose não tratada e pior qualidade de vida no domínio da saúde. Sousa BM, Pontes LA, Cunha LF, Falcão Júnior JO 956 | FEMINA 2025;53(7):952-8 sentimentos que podem ser exacerbados pela croni - cidade da dor e pela percepção de perda de controle sobre suas próprias vidas. Estudos como o de Sullivan- Myers et al. (2023)(9) evidenciam que mais de 80% das mulheres pesquisadas apresentaram sofrimento sexual clinicamente significativo, associado também a altos ní- veis de perturbação da imagem corporal.(9) Dessa forma, essa interferência na feminilidade e no desejo sexual com a distorção da autoimagem contribui para a diminuição da autoestima e para o aumento da vulnerabilidade emocional.(3) Outro aspecto importante é a influência da percep - ção social sobre a saúde psicológica das mulheres com endometriose. A falta de compreensão ou apoio social muitas vezes reforça sentimentos de isolamento e ina - dequação. Estudos como o de Van Eickels et al. (2024) (3) mostram que o apoio social tem um efeito positivo significativo na satisfação conjugal e pode atuar como um fator protetor contra a deterioração da saúde emo - cional. A ausência desse suporte, por outro lado, pode agravar os sentimentos de vulnerabilidade e estresse.(3) Os fatores psicológicos têm papel central nessa dinâ- mica. Muitas mulheres desenvolvem uma autoimagem negativa em decorrência da endometriose, seja pela dor constante, pela infertilidade ou por outros sintomas associados. Essa percepção prejudicada de si mesma, frequentemente associada a baixa autoestima, inten - sifica o sofrimento sexual, como observado no estudo de Sullivan-Myers et al. (2023).(9) Além disso, essas difi - culdades emocionais e sexuais não afetam apenas as pacientes, mas também seus parceiros, que frequente - mente relataram sentimentos de rejeição, frustração e impotência diante da situação, como evidenciado por Schick et al. (2022),(8) em estudo que destacou o impacto emocional mútuo entre os membros do casal. Assim, o estresse e a ansiedade tornam-se sentimentos recípro - cos, criando um ciclo de insatisfação conjugal.(8,9) As perspectivas dos parceiros de mulheres com endo- metriose são frequentemente negligenciadas em estu - dos sobre os impactos da doença, mas são cruciais para compreender o alcance dos efeitos dessa condição nos relacionamentos e no bem-estar emocional do casal. A endometriose afeta não apenas as mulheres diagnos- ticadas, mas também seus parceiros, que vivenciam de perto o estresse emocional, as dificuldades de comuni - cação e os sentimentos de impotência diante dos desa- fios impostos pela doença.(8) Conforme evidenciado por Schick et al. (2022),(8) par- ceiros de mulheres com endometriose constantemente relatam altos níveis de estresse, ansiedade e até mesmo sintomas de depressão. Esses sentimentos podem es - tar associados à incapacidade de aliviar o sofrimento da parceira, ao impacto da dor crônica na vida íntima do ca- sal e à percepção de perda de conexão emocional. Além disso, a dor e os sintomas da endometriose alteram as dinâmicas diárias, como a capacidade de compartilhar atividades conjuntas, o que intensifica sentimentos de frustração e distanciamento.(8) Um dos desafios mais significativos enfrentados pe - los parceiros é lidar com a diminuição da frequência ou qualidade das interações sexuais. Estudos, como o de Rao et al. (2023),(5) mostram que o impacto na vida se - xual cria um descompasso de expectativas entre os par- ceiros. Enquanto a mulher pode evitar relações sexuais devido à dor ou desconforto, o parceiro pode interpretar essa evasão como rejeição, e isso pode gerar frustração e possíveis conflitos.(5) Em mulheres com endometriose e em mulheres do grupo controle, um relacionamento de longo prazo foi associado a uma melhor qualidade geral de parceria, bem como a pontuações mais altas em “ternura”, “união” e “comunicação”, enquanto os homens apresentaram resultados opostos. Consequentemente, as mudanças associadas à duração de uma parceria (inclusive ao lidar com a endometriose) parecem ser experimentadas de maneira diferente por homens e mulheres.(6) Além disso, a falta de comunicação aberta sobre os impactos da endometriose é uma barreira adicional. Muitos casais evitam discutir a influência da doença em sua vida íntima por vergonha, medo de magoar o outro ou desconhecimento sobre como abordar o tema. De acordo com estudos de Kfoury et al. (2023)(10) e Facchin et al. (2021),(11) mulheres que perceberam seus parceiros como mais informados sobre a endometriose e inte - ressados em suas condições de saúde e que relataram que seus parceiros costumavam acompanhá-las às con- sultas apresentaram maior satisfação relacional assim como melhor enfrentamento diádico. Outro fator importante é o impacto da endometriose na autoimagem do parceiro e na percepção de seu papel no relacionamento. Sentimentos de impotência, preocu- pação com o bem-estar da parceira e a frustração de não poder aliviar seu sofrimento podem levar à erosão da autoconfiança. Em alguns casos, conforme observado por Pereira et al. (2021),(12) o desgaste emocional pode ser tão significativo que os pensamentos de separação se tornam recorrentes, especialmente em casos de insa- tisfação sexual prolongada. Nesse mesmo contexto, as variáveis socioculturais e os diferentes contextos nos quais as mulheres com en - dometriose vivem desempenham um papel significativo no impacto da doença sobre a sexualidade e os rela - cionamentos amorosos. As percepções culturais sobre gênero, sexualidade e o papel da mulher na sociedade influenciam diretamente a forma como as pacientes en- frentam os desafios impostos pela endometriose, bem como a dinâmica de apoio nos relacionamentos.(10) Normas culturais influenciam a percepção da sexua - lidade. Em culturas nas quais o sexo é tabu ou ligado à reprodução, como em partes do Oriente Médio e Ásia, o estigma da infertilidade e da endometriose se inten - sifica. O estudo de Kfoury et al. (2023) (10) mostrou que mulheres libanesas com endometriose têm menor sa - tisfação sexual e conjugal, especialmente em contextos que valorizam a fertilidade como parte da identidade Qual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática What is the impact of endometriosis on sexuality and couple relationship: a systematic review | 957 FEMINA 2025;53(7):952-8 feminina. Já em sociedades mais abertas, apesar de maior suporte social, os padrões de beleza e papéis sexuais ainda prejudicam a autoimagem e contribuem para o aumento do sofrimento psicológico.(9) Outro ponto importante é o impacto das diferenças no acesso a recursos de saúde e educação. Em países em desenvolvimento ou em comunidades mais isoladas, a falta de informações sobre a endometriose e o limi - tado acesso a tratamentos especializados podem levar ao diagnóstico tardio e ao agravamento dos sintomas físicos e psicológicos. Esses fatores não apenas difi - cultam o manejo da doença, mas também perpetuam o estigma e o isolamento das mulheres. Em contraste, países com sistemas de saúde mais acessíveis oferecem um contexto mais favorável para o diagnóstico precoce e o tratamento integrado, incluindo suporte psicológico e terapias para casais.(10) As disparidades regionais também influenciam a forma como a dor e os sintomas da endometriose são percebidos e tratados. Em culturas nas quais a dor é normalizada como parte do ciclo menstrual femini - no, mulheres podem demorar mais para buscar ajuda médica, enfrentando anos de sofrimento antes de se - rem diagnosticadas. Essa normalização cultural da dor menstrual foi apontada por estudos como um dos prin- cipais fatores para o diagnóstico tardio da endometrio - se, exacerbando seus impactos na sexualidade e nos relacionamentos.(10) Além disso, as expectativas sociais sobre o papel das mulheres como esposas e mães podem influenciar significativamente a forma como elas e seus parceiros percebem e enfrentam os desafios da endometriose. Em contextos em que o desempenho sexual e a reprodu - ção são vistos como pilares da identidade feminina, a doença pode ser vivida com maior sentimento de culpa e inadequação, o que afeta profundamente a saúde psi- cológica e os relacionamentos.(10) A importância de estratégias de enfrentamento e in - tervenções clínicas no manejo da endometriose está relacionada não apenas ao alívio dos sintomas físicos, mas também ao impacto emocional e relacional da doença. A complexidade dos desafios enfrentados por mulheres com endometriose exige abordagens inte - gradas que contemplem aspectos físicos, psicológicos e sociais, promovendo uma melhor qualidade de vida e restaurando a intimidade e a conexão nos relaciona - mentos.(11-13) Intervenções clínicas têm um papel fundamental no manejo dos sintomas físicos da endometriose, como a dor crônica e a dispareunia, que são os principais fa - tores que comprometem a vida sexual e conjugal das pacientes. Abordagens farmacológicas, como o uso de terapias hormonais, e tratamentos cirúrgicos para re - moção de implantes endometrióticos são comuns. No entanto, para muitas mulheres, esses tratamentos, em - bora essenciais, não são suficientes para lidar com os impactos emocionais e sociais da doença. Estudos como o de Maiorana et al. (2023)(13) destacam a importância de monitorar não apenas os sintomas físicos, mas também os fatores psicológicos associados, como depressão e ansiedade, que agravam o sofrimento sexual e conjugal. Do ponto de vista psicológico, intervenções terapêu - ticas são indispensáveis. A terapia cognitivo-comporta - mental, por exemplo, tem se mostrado eficaz em ajudar mulheres a lidarem com a dor crônica e a melhorarem sua autoimagem, reduzindo o sofrimento psicológico e sexual. O estudo de Sullivan-Myers et al. (2023)(9) sugere que intervenções que promovem a autocompaixão e a aceitação corporal podem desempenhar um papel im - portante na diminuição do impacto emocional da endo- metriose. Além disso, o envolvimento de fisioterapeutas especializados em saúde pélvica pode ajudar a aliviar a dor durante as relações sexuais, aumentando o conforto e a confiança das pacientes.(9) Juntamente a isso, a comunicação aberta e a inclusão dos parceiros no processo de tratamento também são essenciais para melhorar a dinâmica conjugal. Terapias de casal podem ajudar a abordar conflitos relacionados à sexualidade e promover um ambiente de apoio mútuo. Segundo Van Eickels et al. (2024),(3) casais que adotam estratégias de enfrentamento compartilhadas relatam maior satisfação conjugal, e isso destaca a importância de intervenções que não se concentrem apenas na pa - ciente, mas também em seu parceiro. Além disso, programas de educação e conscientiza - ção desempenham papel crucial no enfrentamento da endometriose. Ao fornecer informações claras sobre a doença, seus sintomas e opções de tratamento com uma abordagem multidisciplinar, é possível reduzir o es- tigma e facilitar um diagnóstico mais precoce. A criação de redes de suporte, como grupos de apoio para mulhe- res e seus parceiros, também pode oferecer um espaço seguro para compartilhar experiências e aprender estra- tégias de enfrentamento.(3) Terapias como a cognitivo-comportamental, aliadas à inclusão dos parceiros e à criação de redes de apoio, são essenciais para mitigar os impactos emocionais e restaurar a qualidade de vida e a intimidade nos rela - cionamentos. Além disso, são necessários mais estudos para compreender todas as variáveis que afetam as pa- cientes com esse diagnóstico. Assim, a atenção plena às necessidades físicas, emocionais e socioculturais das mulheres com endometriose é essencial para promover seu bem-estar e fortalecer os laços conjugais.(14,15) CONCLUSÃO A endometriose apresenta um impacto significativo e multifacetado na vida das mulheres, afetando não apenas sua saúde física, mas também sua saúde emo - cional, sexualidade e relacionamentos. Os desafios in - cluem a disfunção sexual, muitas vezes agravada pela dispareunia, que contribui para a insatisfação conjugal e intensifica barreiras emocionais e de comunicação. Sousa BM, Pontes LA, Cunha LF, Falcão Júnior JO 958 | FEMINA 2025;53(7):952-8 Esses fatores são amplificados por questões psicológi - cas, como ansiedade, depressão e baixa autoestima, que estão intrinsecamente ligadas aos sintomas da doença e ao estigma associado. Além disso, os parceiros tam - bém sofrem com os efeitos indiretos da endometriose, enfrentando sentimentos de impotência, frustração e distanciamento emocional, enquanto variáveis sociocul- turais e contextos culturais moldam tanto a experiência da doença quanto a resposta das redes de apoio. As li - mitações no acesso a cuidados de saúde e as normas culturais que normalizam a dor menstrual ou priorizam a fertilidade como parte central da identidade femini - na intensificam o sofrimento das pacientes em muitos contextos. Dada essa complexidade, o enfrentamento da endometriose requer uma abordagem integrada e multidisciplinar, que inclua suporte psicológico e estra- tégias específicas para os parceiros, visando restaurar a qualidade de vida e a intimidade conjugal. Tratamentos clínicos devem ser acompanhados por intervenções te - rapêuticas que abordem a saúde mental, promovam a comunicação entre parceiros e incluam estratégias de suporte social. REFERÊNCIAS 1. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Endometriose. São Paulo: Febrasgo; 2021 (Protocolo Febrasgo-Ginecologia; nº 78/Comissão Nacional Especializada em Endometriose). 2. Vercellini P, Viganò P, Somigliana E, Fedele L. Endometriosis: pathogenesis and treatment. Nature Rev Endocrinol. 2013;10(5):261- 75. doi: 10.1038/nrendo.2013.255 3. Van Eickels D, Schick M, Germeyer A, Rösner S, Strowitzki T, Wischmann T, et al. Predictors of partnership and sexual satisfaction and dyadic effects in couples affected by endometriosis and infertility. Arch Gynecol Obstet. 2024;310(5):2647-55. doi: 10.1007/s00404-024-07516-z 4. Privitera G, O’Brien K, Misajon R, Lin CY. Endometriosis symptomatology, dyspareunia, and sexual distress are related to avoidance of sex and negative impacts on the sex lives of women with endometriosis. Int J Environ Res Public Health. 2023;20(4):3362. doi: 10.3390/ijerph20043362 5. 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