Abstract
Objective: Compile and analyze existing studies on how sexual dysfunction associated
with endometriosis influences intimacy and relationship quality. The objectives include
identifying the main factors affecting sexuality and relationships, highlighting gaps in
clinical management and support for couples impacted by endometriosis. Methods:
This systematic review was conducted following the Preferred Reporting Items for Syste-
matic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) guidelines. Articles in English were selected
using the combination of the descriptors “endometriosis” and “sexuality,” and titles and
abstracts were analyzed for subsequent full reading and selection based on inclusion
and exclusion criteria. Results: The analyzed studies indicated that male and female
partners seem to have divergent perspectives on overall sexual satisfaction and the
desired frequency of sexual contact. The effect of endometriosis on sexual life is signifi-
cant, with dyspareunia being one of the primary symptoms of the disease. Conclusion:
Endometriosis has a profound and multifaceted impact on sexuality and romantic re-
lationships. It is essential for healthcare professionals to address these aspects in their
care, promoting a space for discussions about sexuality and relationships.
Qual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática
What is the impact of endometriosis on sexuality and couple relationship: a systematic review
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FEMINA 2025;53(7):952-8
INTRODUÇÃO
A endometriose é uma doença ginecológica definida
pela presença de implantes endometriais (glândula e/ou
estroma) fora do útero, com predomínio, mas não ex -
clusivo, na pelve feminina. Consiste em uma condição
inflamatória crônica, estrogênio-dependente, que aco -
mete principalmente mulheres em idade fértil.(1)
O espectro clínico dessa doença é amplo, e os sinto -
mas podem variar de mínimos a severamente debilitan-
tes. No entanto, mulheres com endometriose apresen -
tam frequentemente, durante seus anos reprodutivos,
dor pélvica (incluindo dismenorreia e dispareunia), in -
fertilidade ou massa ovariana.(2)
Embora a endometriose seja amplamente estudada
pelos seus sintomas físicos, como dor e dispareunia,
este artigo destaca de forma inédita o impacto conjunto
sobre sexualidade, saúde emocional e a perspectiva dos
parceiros, temas que ainda carecem de maior explora -
ção científica. Todos esses sinais impactam a vida social
e profissional das mulheres, bem como seus relaciona -
mentos e vida íntima.(3)
Dessa forma, a endometriose também impacta o par-
ceiro da paciente. Estudos qualitativos indicaram altos
índices de depressão e ansiedade entre esses parceiros,
além de sentimentos de impotência, frustração, preocu-
pação e raiva. Os parceiros de mulheres com endome -
triose relataram que a vida sexual, a intimidade e o rela-
cionamento do casal foram prejudicados pela condição,
o que pode gerar sérios problemas na relação conjugal.
Esses problemas podem se intensificar quando há pou-
ca comunicação sobre sexualidade, presença de disfun-
ção sexual e evitação das relações íntimas. A endome -
triose também pode comprometer o relacionamento do
casal, afetando o apoio social que os parceiros mascu -
linos oferecem às mulheres, o que pode impactar nega-
tivamente a união do casal. Contudo, ainda há escassez
de estudos que reconheçam o impacto da endometriose
sobre os parceiros masculinos, o que também limita o
suporte social oferecido a eles.(3-6)
MÉTODOS
Os dados foram coletados a partir de uma revisão siste-
mática da literatura, realizada no período de outubro a
novembro de 2024. As bases de dados utilizadas foram
Medical Literature Analysis and Retrieval System Online
(MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em
Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library
Online (SciELO). Como descritores, foram utilizados os
termos em inglês: “endometriosis” AND “sexual function”
AND “relationship”. A pesquisa foi limitada a estudos pu-
blicados nos últimos cinco anos, em inglês, disponíveis
na íntegra, que apresentassem informações pertinentes
para a resposta da pergunta norteadora.
Os critérios de inclusão determinaram que apenas
artigos originais publicados em inglês nos últimos cinco
anos, disponíveis na íntegra, e que abordassem o impacto
da endometriose na função sexual e na relação do casal
seriam incluídos. Foram excluídos dissertações, revisões
de literatura, artigos duplicados, não originais, ou aque-
les que não respondiam à pergunta norteadora ou não
estavam disponíveis na íntegra. Essa exclusão seguiu cri-
térios de qualidade para minimizar vieses. Contudo, re -
conhece-se que a limitação aos estudos em inglês pode
reduzir a representatividade global dos resultados. O
processo de seleção seguiu uma análise criteriosa para
garantir a relevância e a qualidade dos estudos.
Os dados foram extraídos de forma sistemática a par-
tir dos artigos selecionados. Esse processo envolveu a
leitura completa dos textos para identificar informações
relacionadas à pergunta norteadora, bem como aos ob-
jetivos do estudo. As informações extraídas incluíram
detalhes sobre a população, contexto, interesse, desfe -
chos e intervenções, conforme a estratégia PICO.
A síntese dos dados foi realizada qualitativamente,
com foco em uma análise descritiva e narrativa dos re -
sultados. Esse processo foi estruturado em três etapas
principais: extração dos dados relevantes, análise temá-
tica dos conteúdos e integração dos achados em uma
síntese narrativa. Os estudos analisados destacaram o
impacto significativo da endometriose na sexualidade
das mulheres e nas dinâmicas de seus relacionamen -
tos íntimos, oferecendo uma visão abrangente sobre as
implicações dessa condição na qualidade de vida dos
casais. Para analisar e sintetizar os dados dos estudos
incluídos, será realizada uma síntese qualitativa, com o
objetivo de interpretar e integrar as evidências de ma -
neira descritiva e narrativa. A síntese qualitativa será de-
senvolvida em três etapas principais: extração de dados,
análise temática e síntese narrativa dos resultados.
RESULTADOS
O levantamento de dados foi realizado por meio de
uma leitura exploratória, eliminando-se os artigos que
não continham todos os descritores selecionados. Não
foi realizada metanálise devido à heterogeneidade dos
estudos, o que limita a generalização dos resultados.
Dessa forma, após a aplicação dos critérios de inclu -
são, um total de 57 artigos científicos foram identifica -
dos nas bases de dados MEDLINE, SciELO e BVS. Desses,
excluíram-se artigos de revisão e metanálise. Também
foi feita uma breve leitura dos resumos de cada artigo,
excluindo-se aqueles que não eram relevantes ao tema
proposto, permanecendo 18 artigos. Posteriormente,
foram avaliados os textos completos, e apenas 11 arti -
gos responderam à questão norteadora e definiram a
amostra principal da presente revisão, como observado
na figura 1. Os resultados podem ser vistos na tabela 1.
DISCUSSÃO
A disfunção sexual é um dos aspectos mais impactan -
tes da endometriose na vida das mulheres, refletindo
diretamente na insatisfação conjugal. Entre os sintomas
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Quadro 1. Síntese dos artigos resumidos
Autor e ano de
publicação
Tipo de estudo Objetivos Resultados
Rao et al. (2023)(5) Estudo transversal Avaliar a prevalência de disfunção
sexual e desarmonia conjugal
em pacientes com endometriose,
incluindo diagnóstico e tratamento.
A maioria das participantes (n96)
relatou satisfação conjugal ruim a muito
grave, com pontuação MV FSFI acima
de 5. Disfunção sexual e insatisfações
conjugais são comuns e interligadas
em mulheres com endometriose.
El Hadad et al. (2024)(6) Estudo caso-controle Avaliar a parceria no contexto da
endometriose e seus sintomas,
considerando as perspectivas de
ambos os indivíduos envolvidos.
Mulheres com endometriose relataram
mais pensamentos de separação ligados
à satisfação sexual (34,9%/28,3%)
e mais conflitos de parceria que
mulheres sem endometriose.
Van Eickels et
al. (2024)(3)
Estudo transversal Determinar a associação de diferentes
preditores de parceria e satisfação
sexual e efeitos diádicos em casais
com endometriose e infertilidade.
A depressão afetou negativamente a
satisfação com a parceria em homens e a
satisfação sexual em mulheres. O apoio
social teve efeito positivo na satisfação
com a parceria entre as mulheres.
Privitera et al. (2023)(4) Estudo transversal Medir o sofrimento sexual, a evitação do
sexo e o impacto negativo percebido dos
sintomas da endometriose na vida sexual
das mulheres e examinar essas relações.
80,3% das participantes relataram
impacto negativo da endometriose
na vida sexual, e 67,5% evitaram
relações sexuais por causa dela.
Helfenstein et
al. (2023)(7)
Estudo transversal Avaliar perspectivas divergentes de
homens e mulheres sobre aspectos da
sexualidade no contexto da endometriose.
Casais lidando com endometriose
têm percepções diferentes sobre sua
sexualidade, com tendência a superestimar
a satisfação do parceiro. Homens
subestimam a frequência com que suas
parceiras mantêm relações sexuais
apesar do desconforto. Isso reforça a
necessidade de aconselhamento sexual
que inclua ambos no suporte médico.
Schick et al. (2022)(8) Estudo transversal Explorar as inter-relações em casais
com endometriose em questões de
sofrimento psicológico, satisfação
sexual e de parceria e apoio social.
Altas pontuações de depressão,
ansiedade e estresse em mulheres
correlacionaram-se com maior impacto
da dor por endometriose em homens,
enquanto estresse e depressão elevados
em homens estiveram associados
a maior impacto em mulheres.
Sullivan-Myers
et al. (2023)(9)
Estudo transversal Investigar a relação entre imagem
corporal (positiva e negativa), sofrimento
sexual e o papel da autocompaixão.
Mais de 80% relataram sofrimento sexual
significativo e alta perturbação da imagem
corporal. Distúrbio da imagem teve efeito
moderado no sofrimento sexual, enquanto
a autocompaixão teve efeito inverso mais
fraco, sem efeito moderador evidente.
Busca em base
de dados com
descritores
Mesh/Desh
Critérios de
inclusão
Exclusão de artigos de revisão e/
ou resumos irrelevantes ao tema
Artigos restantes que responderam
à questão norteadora após
leitura do texto completo
N(57)
Figura 1. Representação esquemática da escolha de artigos
Qual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática
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mais relatados, a dispareunia, dor durante a relação se-
xual, se destaca como o principal fator limitante na vida
íntima das pacientes. Estudos, como o de Privitera et al.
(2023),(4) mostram que mais de 80% das mulheres acre -
ditavam que os sintomas de endometriose afetavam ne-
gativamente sua vida sexual, enquanto 67,5% relataram
evitar relações sexuais por conta da dor. Essa condição
não apenas reduz a frequência dos encontros íntimos,
mas também cria barreiras psicológicas, como medo do
desconforto e frustração, o que dificulta a intimidade.(4)
Juntamente a isso, o impacto na vida conjugal é
igualmente significativo. Mulheres com endometriose
frequentemente enfrentam insatisfação nos relacio -
namentos, como descrito por Rao et al. (2023), (5) que
encontraram que a maioria das participantes relatou
problemas conjugais graves. A dor crônica e a evitação
do sexo frequentemente resultam em um descompas -
so de expectativas entre os parceiros, aumentando os
conflitos e a distância emocional. Embora a dispareunia
esteja fortemente relacionada à qualidade da parceria
no contexto da endometriose, outros fatores e sinto -
mas influenciam essa associação. Segundo o estudo de
El Hadad et al. (2024),(6) a fadiga, sintoma prevalente na
endometriose, foi associada à menor qualidade da par-
ceria entre casais e à dificuldade em lidar com demons-
trações de afeto.(5,6)
Outro motivo para os diferentes níveis de satisfação
pode ser questões relacionadas à fertilidade, o que é
conhecido por estar associado à redução da satisfação
no relacionamento e sexual, além de maior prevalência
de disfunção sexual.(7)
A endometriose causa dificuldades emocionais e se -
xuais não apenas nas mulheres afetadas, mas também
nos seus parceiros, que frequentemente relatam senti -
mentos de rejeição, frustração e impotência diante da
situação, como aponta Schick et al. (2022).(8) Esses sen-
timentos de estresse e ansiedade acabam sendo com -
partilhados, criando um ciclo de insatisfação no rela -
cionamento. El Hadad et al. (2024)(6) mostraram que, em
29% dos casos em que os homens cogitaram terminar o
relacionamento, a endometriose foi considerada a prin-
cipal causa. Muitos parceiros se sentiram angustiados
ao ver suas companheiras enfrentando a dor, demons -
traram preocupação com a saúde delas e sentiram-se
impotentes, sem, no entanto, diminuir a capacidade de-
las de lidar com a situação.(6)
Em se tratando de saúde mental, a endometriose im-
pacta profundamente a saúde psicológica das mulheres,
criando uma relação intrínseca entre o sofrimento emo-
cional e os desafios enfrentados na sexualidade e nos
relacionamentos conjugais. Essa relação é multifaceta -
da, envolvendo aspectos como depressão, ansiedade,
estresse e autoestima, que muitas vezes são agravados
pelos sintomas crônicos da doença.(3)
Mulheres com endometriose frequentemente en -
frentam elevados níveis de depressão e ansiedade,
Autor e ano de
publicação
Tipo de estudo Objetivos Resultados
Kfoury et al. (2023)(10) Estudo caso controle Avaliar o estado emocional e o aspecto
relacional íntimo da vida em mulheres
libanesas que vivem com endometriose.
Mulheres sem endometriose
tiveram pontuação de satisfação
sexual significativamente maior
em comparação com aquelas com
endometriose. Maior satisfação do
casal e responsividade do parceiro
foram associadas a maior satisfação
sexual, enquanto maior depressão e
a presença de endometriose foram
associadas a menor satisfação sexual.
Facchin et al. (2021)(11) Estudo transversal Explorar as associações entre
relacionamentos íntimos, saúde psicológica
e variáveis relacionadas à endometriose,
como dor pélvica e infertilidade.
A satisfação relacional e o enfrentamento
diádico estão ligados à saúde psicológica.
O maior impacto da endometriose em
relacionamentos íntimos correlacionou-
se com dor pélvica mais intensa,
especialmente dispareunia.
Pereira et al. (2021)(12) Estudo transversal Examinar o efeito indireto da frequência
da atividade sexual e da presença de
infertilidade na relação entre variáveis
clínicas e satisfação conjugal/sexual.
Há um efeito direto entre a percepção
da gravidade dos sintomas, satisfação
conjugal e morbidade psicológica das
mulheres. A satisfação sexual teve efeito
direto na satisfação conjugal das mulheres
e de seus parceiros, prevendo menos
morbidade psicológica em ambos.
Maiorana et
al. (2023)(13)
Estudo observacional Avaliar a relação entre variáveis
psicológicas e duração da endometriose
não tratada em uma amostra de
mulheres com endometriose.
Foi encontrada uma correlação entre
endometriose não tratada e pior
qualidade de vida no domínio da saúde.
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sentimentos que podem ser exacerbados pela croni -
cidade da dor e pela percepção de perda de controle
sobre suas próprias vidas. Estudos como o de Sullivan-
Myers et al. (2023)(9) evidenciam que mais de 80% das
mulheres pesquisadas apresentaram sofrimento sexual
clinicamente significativo, associado também a altos ní-
veis de perturbação da imagem corporal.(9)
Dessa forma, essa interferência na feminilidade e no
desejo sexual com a distorção da autoimagem contribui
para a diminuição da autoestima e para o aumento da
vulnerabilidade emocional.(3)
Outro aspecto importante é a influência da percep -
ção social sobre a saúde psicológica das mulheres com
endometriose. A falta de compreensão ou apoio social
muitas vezes reforça sentimentos de isolamento e ina -
dequação. Estudos como o de Van Eickels et al. (2024)
(3) mostram que o apoio social tem um efeito positivo
significativo na satisfação conjugal e pode atuar como
um fator protetor contra a deterioração da saúde emo -
cional. A ausência desse suporte, por outro lado, pode
agravar os sentimentos de vulnerabilidade e estresse.(3)
Os fatores psicológicos têm papel central nessa dinâ-
mica. Muitas mulheres desenvolvem uma autoimagem
negativa em decorrência da endometriose, seja pela
dor constante, pela infertilidade ou por outros sintomas
associados. Essa percepção prejudicada de si mesma,
frequentemente associada a baixa autoestima, inten -
sifica o sofrimento sexual, como observado no estudo
de Sullivan-Myers et al. (2023).(9) Além disso, essas difi -
culdades emocionais e sexuais não afetam apenas as
pacientes, mas também seus parceiros, que frequente -
mente relataram sentimentos de rejeição, frustração e
impotência diante da situação, como evidenciado por
Schick et al. (2022),(8) em estudo que destacou o impacto
emocional mútuo entre os membros do casal. Assim, o
estresse e a ansiedade tornam-se sentimentos recípro -
cos, criando um ciclo de insatisfação conjugal.(8,9)
As perspectivas dos parceiros de mulheres com endo-
metriose são frequentemente negligenciadas em estu -
dos sobre os impactos da doença, mas são cruciais para
compreender o alcance dos efeitos dessa condição nos
relacionamentos e no bem-estar emocional do casal. A
endometriose afeta não apenas as mulheres diagnos-
ticadas, mas também seus parceiros, que vivenciam de
perto o estresse emocional, as dificuldades de comuni -
cação e os sentimentos de impotência diante dos desa-
fios impostos pela doença.(8)
Conforme evidenciado por Schick et al. (2022),(8) par-
ceiros de mulheres com endometriose constantemente
relatam altos níveis de estresse, ansiedade e até mesmo
sintomas de depressão. Esses sentimentos podem es -
tar associados à incapacidade de aliviar o sofrimento da
parceira, ao impacto da dor crônica na vida íntima do ca-
sal e à percepção de perda de conexão emocional. Além
disso, a dor e os sintomas da endometriose alteram as
dinâmicas diárias, como a capacidade de compartilhar
atividades conjuntas, o que intensifica sentimentos de
frustração e distanciamento.(8)
Um dos desafios mais significativos enfrentados pe -
los parceiros é lidar com a diminuição da frequência ou
qualidade das interações sexuais. Estudos, como o de
Rao et al. (2023),(5) mostram que o impacto na vida se -
xual cria um descompasso de expectativas entre os par-
ceiros. Enquanto a mulher pode evitar relações sexuais
devido à dor ou desconforto, o parceiro pode interpretar
essa evasão como rejeição, e isso pode gerar frustração
e possíveis conflitos.(5)
Em mulheres com endometriose e em mulheres do
grupo controle, um relacionamento de longo prazo foi
associado a uma melhor qualidade geral de parceria,
bem como a pontuações mais altas em “ternura”, “união”
e “comunicação”, enquanto os homens apresentaram
resultados opostos. Consequentemente, as mudanças
associadas à duração de uma parceria (inclusive ao lidar
com a endometriose) parecem ser experimentadas de
maneira diferente por homens e mulheres.(6)
Além disso, a falta de comunicação aberta sobre os
impactos da endometriose é uma barreira adicional.
Muitos casais evitam discutir a influência da doença em
sua vida íntima por vergonha, medo de magoar o outro
ou desconhecimento sobre como abordar o tema. De
acordo com estudos de Kfoury et al. (2023)(10) e Facchin
et al. (2021),(11) mulheres que perceberam seus parceiros
como mais informados sobre a endometriose e inte -
ressados em suas condições de saúde e que relataram
que seus parceiros costumavam acompanhá-las às con-
sultas apresentaram maior satisfação relacional assim
como melhor enfrentamento diádico.
Outro fator importante é o impacto da endometriose
na autoimagem do parceiro e na percepção de seu papel
no relacionamento. Sentimentos de impotência, preocu-
pação com o bem-estar da parceira e a frustração de
não poder aliviar seu sofrimento podem levar à erosão
da autoconfiança. Em alguns casos, conforme observado
por Pereira et al. (2021),(12) o desgaste emocional pode
ser tão significativo que os pensamentos de separação
se tornam recorrentes, especialmente em casos de insa-
tisfação sexual prolongada.
Nesse mesmo contexto, as variáveis socioculturais e
os diferentes contextos nos quais as mulheres com en -
dometriose vivem desempenham um papel significativo
no impacto da doença sobre a sexualidade e os rela -
cionamentos amorosos. As percepções culturais sobre
gênero, sexualidade e o papel da mulher na sociedade
influenciam diretamente a forma como as pacientes en-
frentam os desafios impostos pela endometriose, bem
como a dinâmica de apoio nos relacionamentos.(10)
Normas culturais influenciam a percepção da sexua -
lidade. Em culturas nas quais o sexo é tabu ou ligado à
reprodução, como em partes do Oriente Médio e Ásia,
o estigma da infertilidade e da endometriose se inten -
sifica. O estudo de Kfoury et al. (2023) (10) mostrou que
mulheres libanesas com endometriose têm menor sa -
tisfação sexual e conjugal, especialmente em contextos
que valorizam a fertilidade como parte da identidade
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feminina. Já em sociedades mais abertas, apesar de
maior suporte social, os padrões de beleza e papéis
sexuais ainda prejudicam a autoimagem e contribuem
para o aumento do sofrimento psicológico.(9)
Outro ponto importante é o impacto das diferenças
no acesso a recursos de saúde e educação. Em países
em desenvolvimento ou em comunidades mais isoladas,
a falta de informações sobre a endometriose e o limi -
tado acesso a tratamentos especializados podem levar
ao diagnóstico tardio e ao agravamento dos sintomas
físicos e psicológicos. Esses fatores não apenas difi -
cultam o manejo da doença, mas também perpetuam
o estigma e o isolamento das mulheres. Em contraste,
países com sistemas de saúde mais acessíveis oferecem
um contexto mais favorável para o diagnóstico precoce
e o tratamento integrado, incluindo suporte psicológico
e terapias para casais.(10)
As disparidades regionais também influenciam a
forma como a dor e os sintomas da endometriose são
percebidos e tratados. Em culturas nas quais a dor é
normalizada como parte do ciclo menstrual femini -
no, mulheres podem demorar mais para buscar ajuda
médica, enfrentando anos de sofrimento antes de se -
rem diagnosticadas. Essa normalização cultural da dor
menstrual foi apontada por estudos como um dos prin-
cipais fatores para o diagnóstico tardio da endometrio -
se, exacerbando seus impactos na sexualidade e nos
relacionamentos.(10)
Além disso, as expectativas sociais sobre o papel
das mulheres como esposas e mães podem influenciar
significativamente a forma como elas e seus parceiros
percebem e enfrentam os desafios da endometriose. Em
contextos em que o desempenho sexual e a reprodu -
ção são vistos como pilares da identidade feminina, a
doença pode ser vivida com maior sentimento de culpa
e inadequação, o que afeta profundamente a saúde psi-
cológica e os relacionamentos.(10)
A importância de estratégias de enfrentamento e in -
tervenções clínicas no manejo da endometriose está
relacionada não apenas ao alívio dos sintomas físicos,
mas também ao impacto emocional e relacional da
doença. A complexidade dos desafios enfrentados por
mulheres com endometriose exige abordagens inte -
gradas que contemplem aspectos físicos, psicológicos
e sociais, promovendo uma melhor qualidade de vida
e restaurando a intimidade e a conexão nos relaciona -
mentos.(11-13)
Intervenções clínicas têm um papel fundamental no
manejo dos sintomas físicos da endometriose, como a
dor crônica e a dispareunia, que são os principais fa -
tores que comprometem a vida sexual e conjugal das
pacientes. Abordagens farmacológicas, como o uso de
terapias hormonais, e tratamentos cirúrgicos para re -
moção de implantes endometrióticos são comuns. No
entanto, para muitas mulheres, esses tratamentos, em -
bora essenciais, não são suficientes para lidar com os
impactos emocionais e sociais da doença. Estudos como
o de Maiorana et al. (2023)(13) destacam a importância de
monitorar não apenas os sintomas físicos, mas também
os fatores psicológicos associados, como depressão e
ansiedade, que agravam o sofrimento sexual e conjugal.
Do ponto de vista psicológico, intervenções terapêu -
ticas são indispensáveis. A terapia cognitivo-comporta -
mental, por exemplo, tem se mostrado eficaz em ajudar
mulheres a lidarem com a dor crônica e a melhorarem
sua autoimagem, reduzindo o sofrimento psicológico e
sexual. O estudo de Sullivan-Myers et al. (2023)(9) sugere
que intervenções que promovem a autocompaixão e a
aceitação corporal podem desempenhar um papel im -
portante na diminuição do impacto emocional da endo-
metriose. Além disso, o envolvimento de fisioterapeutas
especializados em saúde pélvica pode ajudar a aliviar a
dor durante as relações sexuais, aumentando o conforto
e a confiança das pacientes.(9)
Juntamente a isso, a comunicação aberta e a inclusão
dos parceiros no processo de tratamento também são
essenciais para melhorar a dinâmica conjugal. Terapias
de casal podem ajudar a abordar conflitos relacionados
à sexualidade e promover um ambiente de apoio mútuo.
Segundo Van Eickels et al. (2024),(3) casais que adotam
estratégias de enfrentamento compartilhadas relatam
maior satisfação conjugal, e isso destaca a importância
de intervenções que não se concentrem apenas na pa -
ciente, mas também em seu parceiro.
Além disso, programas de educação e conscientiza -
ção desempenham papel crucial no enfrentamento da
endometriose. Ao fornecer informações claras sobre
a doença, seus sintomas e opções de tratamento com
uma abordagem multidisciplinar, é possível reduzir o es-
tigma e facilitar um diagnóstico mais precoce. A criação
de redes de suporte, como grupos de apoio para mulhe-
res e seus parceiros, também pode oferecer um espaço
seguro para compartilhar experiências e aprender estra-
tégias de enfrentamento.(3)
Terapias como a cognitivo-comportamental, aliadas à
inclusão dos parceiros e à criação de redes de apoio,
são essenciais para mitigar os impactos emocionais e
restaurar a qualidade de vida e a intimidade nos rela -
cionamentos. Além disso, são necessários mais estudos
para compreender todas as variáveis que afetam as pa-
cientes com esse diagnóstico. Assim, a atenção plena às
necessidades físicas, emocionais e socioculturais das
mulheres com endometriose é essencial para promover
seu bem-estar e fortalecer os laços conjugais.(14,15)
CONCLUSÃO
A endometriose apresenta um impacto significativo
e multifacetado na vida das mulheres, afetando não
apenas sua saúde física, mas também sua saúde emo -
cional, sexualidade e relacionamentos. Os desafios in -
cluem a disfunção sexual, muitas vezes agravada pela
dispareunia, que contribui para a insatisfação conjugal
e intensifica barreiras emocionais e de comunicação.
Sousa BM, Pontes LA, Cunha LF, Falcão Júnior JO
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Esses fatores são amplificados por questões psicológi -
cas, como ansiedade, depressão e baixa autoestima, que
estão intrinsecamente ligadas aos sintomas da doença
e ao estigma associado. Além disso, os parceiros tam -
bém sofrem com os efeitos indiretos da endometriose,
enfrentando sentimentos de impotência, frustração e
distanciamento emocional, enquanto variáveis sociocul-
turais e contextos culturais moldam tanto a experiência
da doença quanto a resposta das redes de apoio. As li -
mitações no acesso a cuidados de saúde e as normas
culturais que normalizam a dor menstrual ou priorizam
a fertilidade como parte central da identidade femini -
na intensificam o sofrimento das pacientes em muitos
contextos. Dada essa complexidade, o enfrentamento
da endometriose requer uma abordagem integrada e
multidisciplinar, que inclua suporte psicológico e estra-
tégias específicas para os parceiros, visando restaurar a
qualidade de vida e a intimidade conjugal. Tratamentos
clínicos devem ser acompanhados por intervenções te -
rapêuticas que abordem a saúde mental, promovam a
comunicação entre parceiros e incluam estratégias de
suporte social.
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