Keywords
Endometriosis; Lifestyle; Pelvic Pain; Nutrition; Complementary Therapies.
1. INTRODUÇÃO
A endometriose é uma condição ginecológica crônica e progressiva que afeta aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva. Caracteriza-se pela presença de tecido endometrial funcional ectópico, fora da cavidade uterina (Smolarz B et al., 2021). A condição impacta o bem-estar físico e emocional das pacientes, gerando sobrecarga nos sistemas de saúde e nos aspectos sociais e psicológicos (Almeida et al., 2019). Além dos sintomas físicos, a dor crônica, a infertilidade e as dificuldades no diagnóstico precoce podem gerar estigma, redução da qualidade de vida, aumento do estresse e distúrbios emocionais (Santos; Pereira, 2021).
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial supera 7,7 bilhões de pessoas, com mais de 3,8 bilhões de mulheres. No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta mais de 213,4 milhões de habitantes, sendo aproximadamente 51,5% mulheres, principalmente em idade fértil, entre 15 e 39 anos (IBGE; ONU, 2026). Segundo o Ministério da Saúde (MS), entre as principais queixas relacionadas à saúde feminina estão problemas ligados ao ciclo menstrual, como sangramento uterino anormal, amenorreias, sintomas pré-menstruais, endometriose, infertilidade e dores pélvicas (MS, 2026).
Esses efeitos, associados à necessidade de diagnóstico preciso e tratamento contínuo, reforçam a importância de abordagens terapêuticas que considerem a singularidade de cada paciente. A literatura recomenda tratamento multidisciplinar, incluindo abordagens farmacológicas, cirúrgicas e alternativas, visando aliviar sintomas, restaurar a qualidade de vida e promover acompanhamento integral (Rodrigues et al., 2022).
A escolha deste tema justifica-se pela crescente conscientização sobre a doença e pelos avanços na saúde da mulher, ampliando a atenção às necessidades específicas das pacientes com endometriose. Espera-se que este estudo contribua para estratégias mais assertivas e humanizadas, promovendo o bem-estar físico e emocional e alinhando-se às melhores práticas baseadas em evidências (Costa; Pereira, 2021).
Entre os padrões alimentares com potencial terapêutico, destacam-se a Dieta Mediterrânea e as dietas predominantemente vegetais (plant-based), cujos efeitos anti-inflamatórios têm sido investigados no manejo da endometriose (Zippl et al., 2024; Gruber; Mechsner, 2021). A mudança de hábitos alimentares e a prática de exercícios físicos podem contribuir para a redução do estresse. A endometriose relaciona-se ao estresse, à ansiedade e ao estilo de vida, especialmente nas grandes cidades (Falcade et al., 2008). Estudos também destacam terapias integrativas, como fisioterapia, mudanças no estilo de vida e suporte psicológico, que podem melhorar a qualidade de vida (Oliveira; Ferreira, 2021).
Portanto, o objetivo principal desta revisão bibliográfica é demonstrar como a integração de uma dieta equilibrada, atividade física e práticas integrativas e complementares (PICS) pode oferecer uma via terapêutica adicional para promover o equilíbrio do corpo e da mente, além de explorar intervenções terapêuticas eficazes.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura que se configura em uma pesquisa criteriosa que tem como finalidade sintetizar resultados obtidos sobre um tema ou questão de maneira ordenada, abrangente e sistemática bem como propiciar informações mais amplas sobre um assunto/problema por meio de fontes de informações bibliográficas ou eletrônicas.
Para a elaboração desta revisão foi formulada a questão de pesquisa, a partir da estratégia PICo (Acrônimo para Participante/População, Fenômenos de Interesse e Contexto), sendo o primeiro elemento (P) relacionado a mulheres com endometriose; o segundo elemento (I) ao alívio da dor; e o terceiro elemento (Co) ao tratamento não farmacológico, resultando na seguinte questão: Quais intervenções no estilo de vida podem ser utilizados como estratégia para melhoria do bem-estar físico e emocional das mulheres com endometriose?
A busca pelos artigos foi realizada nos meses de abril e maio de 2026 nas bases de dados PubMed, SciELO, LILACS e Google Acadêmico através dos descritores: 1. Qualidade de vida da mulher com endometriose; 2. Saúde da mulher com endometriose; 3. Estilo de vida como melhoria da endometriose; 4. Intervenções não farmacológicas com aplicação na endometriose; 5. Relação na qualidade de vida na dor pélvica crônica; 6. Bem-estar físico e emocional na endometriose; 7. Nutrição e dietas como estratégia para melhoria da endometriose; 8. Atividade física para melhorar a qualidade de vida das mulheres com endometriose; 9. Saúde reprodutiva em mulheres com endometriose; 10. Meditação para auxílio do bem-estar emocional das mulheres com endometriose.
Para a seleção dos artigos foram adotados como critérios de inclusão: textos completos publicados nos idiomas português e inglês, indexados nas referidas bases de dados nos últimos dez anos. No que se refere aos critérios de exclusão, foram retirados dissertações, monografias, teses, resenhas, editoriais, cartas ao editor, artigos duplicados e que não contemplaram a temática do estudo.
Assim, foram encontrados 11.452 artigos, resultando apenas 2.487 artigos após a aplicação dos filtros. Em seguida, foram analisados o título e o resumo dos artigos e na sequência, procedeu-se a leitura do texto completo sendo selecionados 18 artigos para constituir a amostra (Figura 1).
Diante do exposto, o artigo foi redigido, seguindo a estrutura convencional de introdução, metodologia, resultados, discussões e conclusão; garantindo clareza, coesão e rigor científico.
Figura 1. Fluxograma das etapas de seleção dos estudos incluídos na amostra.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A partir da pesquisa realizada, selecionou-se 18 publicações para análise e discussão. O Quadro 1 apresenta os estudos da pesquisa em ordem crescente de publicação, contendo a autoria e o ano da publicação, o título, o objetivo, a conclusão e a categoria a que se refere, com base nos eixos escolhidos.
Quadro 1. Resultado da pesquisa
Autoria (ano) | Título | Objetivo | Conclusão | Categoria |
Gabriela Pimentel Porfírio, Gabriela Rister Figueiredo Irie, Letícia Cassimiro Batista e Alessandra Bernadete Trovó de Marqui (2017) | O PAPEL DA DIETA NA ETIOLOGIA DA ENDOMETRIOSE | Descrever o papel da dieta na etiologia da endometriose. | Foi demonstrado um papel significativo da dieta no desenvolvimento e progressão da endometriose, sendo que a maioria exibe efeito protetor. Nesse sentido, é pertinente, adequado e justificável o acompanhamento nutricional às pacientes portadoras de endometriose. | Alimentação |
H. R. Harris, A. C. Eke, J. E. Chavarro e S. A. Missmer (2018) | FRUIT AND VEGETABLE CONSUMPTION AND RISK OF ENDOMETRIOSIS | Analisar a relação entre ingestão de frutas e vegetais e o risco de endometriose. | Foi concluído que o consumo de frutas e vegetais está associado a um menor risco de endometriose, em especial o grupo das frutas cítricas e os vegetais crucíferos. | Alimentação |
Ms. Ayae YAMAMOTO, SM; Holly R. HARRIS, ScD; Ms. Allison F. VITONIS, SM; Jorge E. CHAVARRO, MD, ScD; Stacey A. MISSMER, ScD (2018) | A PROSPECTIVE COHORT STUDY OF MEAT AND FISH CONSUMPTION AND ENDOMETRIOSIS RISK. | Determinar se a ingestão elevada de aves, peixes, frutos do mar e carne vermelha está associada ao risco de endometriose confirmada. | O consumo de carne vermelha estava associado ao aumento da dor pélvica. A gordura animal presente na carne também foi associada a um maior risco de endometriose. A | Alimentação |
Firoozeh Mirzaee e Atefeh Ahmadi (2021) | OVERVIEW OF THE EFFECT OF COMPLEMENTARY MEDICINE ON TREATING OR MITIGATING THE RISK OF ENDOMETRIOSIS | Explorar o efeito da medicina complementar no tratamento ou na mitigação do risco de endometriose. | Com base na revisão da literatura relevante, entre os medicamentos complementares disponíveis para o tratamento ou risco de endometriose, apenas a acupuntura parece aliviar a dor da endometriose. | Terapia complementar |
Nassir Habib, Giovanni Buzzaccarini, Gabriele Centini, Gaby N. Moawad, Pierre-Francois Ceccaldi, Georgios Gitas, Ibrahim Alkatout, Giuseppe Gullo, Sanja Terzic e Zaki Sleiman (2022) | IMPACT OF LIFESTYLE AND DIET ON ENDOMETRIOSIS: A FRESH LOOK TO A BUSY CORNER | Analisar o impacto do estilo de vida e da alimentação na endometriose. | Apesar do baixo nível de evidência, há associações frequentes entre a endometriose e condições gastrointestinais, além da influência de vários fatores nutricionais na doença. O tratamento da endometriose requer uma abordagem holística focada na redução da inflamação geral, no aumento da desintoxicação e na atenuação dos sintomas incômodos. Um nutricionista pode oferecer grande benefício no tratamento dessas pacientes, especialmente em idades mais jovens e nos estágios iniciais. | Alimentação |
Maíra de Oliveira Gomes, Marina Pereira Rocha e Camila Melo Araújo de Moura e Lima (2022) | OS BENEFÍCIOS NUTRICIONAIS PARA REDUÇÃO DE SINTOMAS E PROGRESSÃO DA ENDOMETRIOSE | Esclarecer como a alimentação balanceada através da oferta de alimentos com propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes podem ter ação benéfica no desenvolvimento na redução dos sintomas clínicos da endometriose. | Manter uma alimentação equilibrada a base de alimentos in natura, vitaminas e minerais com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórios apresenta-se como estratégia positiva nos processos fisiológicos da doença, reduzindo os sintomas clínicos e regressão da endometriose. | Alimentação |
Rayssa Carvalho Teodoro e Simone Denise David (2023) | INFLUÊNCIA DO CONSUMO DE ÁCIDOS GRAXOS, VITAMINA D E ANTIOXIDANTES NA ENDOMETRIOSE: REVISÃO DE LITERATURA | Avaliar a influência de dieta rica em ácidos graxos, vitamina D e antioxidantes na fisiopatologia e no tratamento de endometriose. | Ácidos graxos poli-insaturados, como ômega-3, parecem reduzir sintomas álgicos na endometriose; a vitamina D parece modular a patogênese, sendo a hipovitaminose D um potencial componente de severidade da doença; todavia, devido à heterogeneidade dos estudos, não se pode confirmar essas associações. Por outro lado, antioxidantes têm controle sobre estresse oxidativo e melhoram a sintomatologia da endometriose. | Alimentação |
Daniela Ribeiro Queda, Bárbara Vieira Rodrigues, Lívia Rodrigues Galera, Lua Clara Ortolan, Ronaldo Gonçalves da Silva, Ana Paula Gallo Naoum, Gabriel Antonio Cabriott Dumbra (2023) | TERAPIAS COMPLEMENTARES NO TRATAMENTO DE ENDOMETRIOSE: UMA REVISÃO INTEGRATIVA | Identificar as terapias complementares utilizadas no tratamento e alivio de sintomas de mulheres portadoras da endometriose | Mulheres com endometriose apresentaram melhora nas dores pélvicas com as terapias complementar, sendo a acupuntura com os melhores resultados para alívio dos sintomas. | Terapia complementar |
Rafaela Neumann, Natália Leitzke Farias, Tamires Rizzi e Alessandra Doumid Borges Pretto (2023) | INFLUÊNCIA DA ALIMENTAÇÃO INDIVÍDUOS COM ENDOMETRIOSE: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA | Avaliar a influência da alimentação em indivíduos com endometriose, bem como o efeito dos alimentos e da prática de exercícios físicos para a redução dos sintomas. | A alimentação tem papel importante tanto para o desenvolvimento da doença, como para a melhoria e agravamento dos sintomas. Mas são necessários diferentes estudos para verificar quais nutrientes e alimentos possuem efeitos protetores e atuam na melhora dos sintomas da endometriose. | Alimentação |
Malu da Silva Damaceno, Vanda Palmarella Rodrigues , Zulmerinda Meira Oliveira e Flavia Pedro dos Anjos Santos (2024) | ABORDAGEM NÃO-FARMACOLÓGICA PARA A DOR PÉLVICA DE MULHERES COM ENDOMETRIOSE – REVISÃO INTEGRATIVA | Conhecer por meio da literatura os tratamentos não farmacológicos para o alívio da dor pélvica em mulheres com diagnóstico de endometriose. | A mulher pode encontrar diversos obstáculos para aderir às Práticas Integrativas e Complementares e ao estilo de vida saudável, entre as quais destacam-se os aspectos socioeconômicos, dificuldade de acesso aos serviços que ofertem essas práticas bem como escassez de profissionais capacitados para atuarem nessa abordagem. | Terapia complementar |
Elizabeth Miazga, MD, LLM; Hava Starkman, MD; Nicole Schroeder, MSW; Alysha Nensi, MD, MSc e Carmen McCaffrey, MD, MSc (2024) | VIRTUAL MINDFULNESS-BASED THERAPY FOR THE MANAGEMENT OF ENDOMETRIOSIS CHRONIC PELVIC PAIN: A NOVEL DELIVERY PLATFORM TO INCREASE ACCESS TO CARE | Este estudo avaliou a eficácia de um programa virtual de redução do estresse baseado em mindfulness (MBSR) para melhorar a qualidade de vida e a dor em pessoas com endometriose. | Um curso virtual de MBSR pode melhorar a qualidade de vida em pessoas com endometriose. O formato virtual mostrou-se eficaz e foi o preferido pelos participantes. Os programas virtuais de MBSR podem aumentar o acesso a esse tipo de atendimento. | Terapia complementar |
Ana Clara Vilela Leal, Maria do Carmo Holanda Nunes, João Paulo Ferreira Fornazier, Nathália Gomes de Morais, Juliana Tonelli Teixeira Álvares, João Batista Rodrigues Dutra, Ana Karolina Lopes e Poliana Peres Ghazale (2024) | EXPLORANDO A RELAÇÃO ENTRE A ENDOMETRIOSE E A ALIMENTAÇÃO: UMA REVISÃO NARRATIVA DA LITERATURA | Avaliar a relação entre a alimentação e a endometriose. | O papel crucial da nutrição é evidente nesse contexto, uma vez que a alimentação exerce considerável influência nos desdobramentos da doença. Uma dieta equilibrada, anti-inflamatória e com redução do consumo de alimentos ultraprocessados demonstram resultados significativos no tratamento dessa condição. | Alimentação |
Rafaela dos Santos Brito, Camila Ruiz Coldebella, Ana Celina Cavalcante Oliveira e Luciana de Paiva Amaral (2024) | ENDOMETRIOSE E EXERCÍCIOS FÍSICOS: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA | Examinar a literatura para identificar evidências sobre o impacto da atividade física e do exercício no tratamento de mulheres com sintomas associados à endometriose. | Exercícios físicos desempenham papel benéfico no manejo dos sintomas da endometriose, especialmente na redução da dor pélvica e na melhoria da qualidade de vida. No entanto, são necessários mais estudos com amostras maiores e metodologia rigorosa para consolidar diretrizes claras. | Atividade Física |
Fernanda Beatriz Ferreira Gomes, Stefany Katelei Barros Reis, Maria Fernanda Duca Costa Mattos, Vinicius Freitas Silveira, Thereza Ribeiro de Paula Penna (2024) | OS EFEITOS DA ATIVIDADE FÍSICA NA ENDOMETRIOSE: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA | Analisar criticamente a relação entre a endometriose e a atividade física, explorando os efeitos dessa atividade nos sintomas e desfechos associados à condição. | A atividade física mostra-se uma ferramenta complementar relevante no cuidado à mulher com endometriose. Os principais benefícios incluem: Redução da dor, Controle inflamatório, Melhora hormonal, Saúde mental e Qualidade de vida. | Atividade Física |
Mariane de Fátima Barcelos, Camila Rita de Souza Bertoloni, Juliana Lilis da Silva e Natália de Fátima Gonçalves Amâncio (2024) | A INFLUÊNCIA DOS HÁBITOS DE VIDA NO TRATAMENTO DA ENDOMETRIOSE | Investigar os fatores que influenciam, bem como, os hábitos de vida como parte essencial do tratamento de tal comorbidade, de maneira a melhorar a qualidade de vida dessas pacientes. | A endometriose é uma doença inflamatória, assim alimentos que contém substancias anti-inflamatórias melhoram a qualidade de vida das mulheres, além de ser necessário evitar hábitos que intensifica a inflamação do corpo, como a falta de atividades físicas, exposição a toxinas e uma dieta baseada em alimentos inflamatórios. | Alimentação |
Nathália Caroline Andrade Borba de MéloI, Bárbara Lavinha feitosa de BritoII, Adriana Lira Rufino de LucenaIII, Juliana Silveira de Mello Lula AyresIV e Suellen Duarte de Oliveira Matos (2025) | EFEITOS DAS PRÁTICAS INTEGRATIVAS NA SAÚDE DA MULHER DURANTE O CICLO MENSTRUAL: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA | Revisar o panorama das pesquisas científicas em saúde, publicadas na literatura sobre os efeitos das práticas integrativas complementares na saúde da mulher durante o ciclo menstrual na visão da medicina ocidental e da medicina tradicional chinesa. | As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, como a acupressão, auriculoterapia, aromaterapia, fitoterapia e ioga, quando introduzida na saúde da mulher, poderá contribuir para a redução dos agravos gerados pelos distúrbios ginecológicos e integração dos profissionais de saúde na individualização do tratamento, contribuindo de forma complementar às intervenções terapêuticas. | Terapia complementar |
Luciana Rodrigues, Patrícia Espanhol Cabral, Guilherme Moraes Pesente e Carlos Vinícius Ernandes Patrício (2025) | ENDOMETRIOSE: O IMPACTO NA QUALIDADE DE VIDA E ABORDAGENS TERAPÊUTICAS PARA PACIENTES: UMA REVISÃO DE LITERATURA | Reunir, analisar e sistematizar informações provenientes de estudos relevantes da literatura científica sobre o tema. A revisão compreende os múltiplos impactos da endometriose na vida das mulheres, analisando as estratégias terapêuticas disponíveis e os avanços no manejo da doença. | As abordagens terapêuticas, que incluem tratamentos farmacológicos, cirúrgicos e práticos complementares, precisam ser adaptadas às necessidades individuais de cada paciente, sempre com um foco multidisciplinar, envolvendo ginecologistas, psicólogos, fisioterapeutas e nutricionistas, para que se alcance o melhor resultado possível. A endometriose é uma condição que exige um cuidado integral e humanizado, com atenção às necessidades físicas e emocionais, e que, por meio de mais pesquisas e educação sobre a doença, é possível proporcionar melhores resultados para as mulheres afetadas. | Terapia complementar |
Lorena Roas Ribeiro, César Asano Maciel, Débora Rozendo Corrêa, Leonardo Silvestro Bruginski, Michele Paixão Silveira e Edinaldo Pereira Souza (2025) | INTERVENÇÕES ALIMENTARES NA MODULAÇÃO DA INFLAMAÇÃO E MANEJO DA | Analisar o papel das intervenções alimentares na modulação da inflamação e no manejo da endometriose. | A endometriose é uma condição ginecológica inflamatória crônica que compromete significativamente a qualidade de vida de milhões de mulheres em idade reprodutiva. As abordagens alimentares têm se mostrado promissoras no tratamento da doença. | Alimentação |
Fonte: Elaborado pelos autores, 2026.
A análise dos 18 artigos selecionados para esta revisão permitiu a organização das evidências em três eixos fundamentais: a relação da alimentação, o papel da atividade física e a eficácia das terapias complementares, como acupuntura, meditação e auriculoterapia, no manejo da endometriose. Os achados convergem para a compreensão de que intervenções no estilo de vida não apenas mitigam os sintomas físicos, como a dor pélvica crônica, mas também promovem uma melhora significativa no bem-estar emocional e na qualidade de vida das mulheres. (Brito et al., 2024; Gomes et al., 2024; Rodrigues et al., 2025).
3.1. Alimentação e Modulação Inflamatória
A alimentação é apontada como um fator de risco modificável crucial, capaz de influenciar a etiologia, a progressão e a sintomatologia da endometriose através da modulação de processos inflamatórios, estresse oxidativo e níveis hormonais (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Leal et al., 2024; Porfírio et al., 2017; Teodoro; David, 2023).
Alimentos Pro-inflamatórios e Fatores de Risco: Diversos estudos estabelecem uma correlação direta entre o consumo elevado de carne vermelha (processada ou não) e o aumento do risco de diagnóstico da doença (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Leal et al., 2024; Neumann et al., 2023; Teodoro; David, 2023). Mulheres que consomem duas ou mais porções de carne vermelha por dia apresentam um risco até 56% maior de desenvolver endometriose em comparação com aquelas que consomem menos de uma porção por semana (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Leal et al., 2024). Este fenômeno é atribuído à presença de gorduras saturadas, ácido palmítico e ferro heme, que potencializam o estresse oxidativo e elevam as concentrações de estradiol e sulfato de estrona, favorecendo a proliferação do tecido endometrial ectópico (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Leal et al., 2024; Teodoro; David, 2023). Além disso, o consumo de gorduras trans, comuns em alimentos ultraprocessados, é associado a um aumento de 48% no risco da patologia e ao agravamento dos processos inflamatórios (Leal et al., 2024; Neumann et al., 2023).
Alimentos Anti-inflamatórios e Fatores de Proteção: Em contrapartida, o consumo de frutas e vegetais exerce um papel protetor robusto (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Leal et al., 2024; Neumann et al., 2023; Teodoro; David, 2023). Mulheres que ingerem três ou mais porções diárias desses alimentos apresentam uma redução significativa no risco da doença (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Leal et al., 2024). As frutas cítricas, em particular, destacam-se pela presença de naringenina e β-criptoxantina, que possuem propriedades antioxidantes e antiproliferativas (Harris et al., 2018; Neumann et al., 2023; Teodoro; David, 2023). O consumo frequente de vegetais verdes, ricos em fibras, auxilia na regulação hormonal ao diminuir a circulação entero-hepática de estrogênio, facilitando sua excreção (Leal et al., 2024; Neumann et al., 2023). Os ácidos graxos poli-insaturados, especificamente o Ômega-3 (EPA e DHA), são amplamente defendidos como adjuvantes no controle da dor (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Leal et al., 2024; Neumann et al., 2023; Teodoro; David, 2023). O Ômega-3 compete com o Ômega-6 (pró-inflamatório) na produção de prostaglandinas, reduzindo os níveis de citocinas inflamatórias e a intensidade da dismenorreia e da dispareunia (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Leal et al., 2024; Teodoro; David, 2023). Além do alívio álgico, o Ômega-3 demonstra impacto positivo na saúde mental, auxiliando na redução de sintomas de ansiedade e depressão (Neumann et al., 2023; Porfírio et al., 2017).
Suplementação e Micronutrientes: A suplementação com antioxidantes, como as vitaminas C e E, demonstrou eficácia na redução da dor pélvica crônica e na diminuição de marcadores inflamatórios no fluido peritoneal (Damaceno et al., 2024; Gomes; Rocha; Lima, 2022; Porfírio et al., 2017; Teodoro; David, 2023). Já em relação à Vitamina D, embora sua deficiência (hipovitaminose D) esteja correlacionada à maior gravidade da doença em alguns estudos, os resultados sobre a eficácia da sua suplementação isolada no alívio da dor ainda são heterogêneos e inconclusivos (Damaceno et al., 2024; Gomes; Rocha; Lima, 2022; Teodoro; David, 2023). O magnésio também é citado como fator de proteção por atuar no relaxamento da musculatura lisa pélvica e na redução dos processos inflamatórios (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Neumann et al., 2023).
Por fim, compostos bioativos como a curcumina e o resveratrol ganham destaque por suas propriedades anti-inflamatórias e antiangiogênicas, capazes de suprimir a proliferação de células endometriais e reduzir o tamanho das lesões (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Leal et al., 2024; Neumann et al., 2023).
3.2. Atividade Física e Bem-Estar Psicofísico
A prática regular de exercícios físicos é apresentada como uma intervenção não farmacológica, não invasiva e de baixo custo, fundamental para o manejo multidisciplinar da endometriose (Gomes et al., 2024).
Mecanismos de Ação: O exercício atua através de múltiplos mecanismos fisiológicos: promove a redução do quadro inflamatório sistêmico, melhora a circulação sanguínea e estimula a liberação de endorfinas, que agem como analgésicos naturais (Brito et al., 2024; Gomes et al., 2024). Além disso, a atividade física regular pode aumentar os níveis de globulina de ligação aos hormônios sexuais (SHBG), reduzindo a biodisponibilidade de estrogênios circulantes, o que é crucial em uma patologia estrogênio-dependente (Brito et al., 2024; Mirzaee; Ahmadi, 2021).
Benefícios Físicos e Alívio da Dor: Estudos indicam que atividades aeróbicas de intensidade moderada (como caminhada, corrida leve e ciclismo), mantidas por mais de 10 minutos, ativam mecanismos endógenos de controle da dor. (Brito et al., 2024; Gomes et al., 2024). Exercícios anaeróbicos (resistência e musculação) contribuem para a redução da inflamação e melhora da força muscular (Brito et al., 2024). Práticas que combinam alongamento e Yoga demonstraram eficácia na melhoria da flexibilidade, redução do estresse e alívio da dor pélvica diária (Brito et al., 2024; Damaceno et al., 2024; Mélo et al., 2025). No entanto, nota-se que o alívio álgico proporcionado pelo exercício pode ser temporário, decorrente da liberação de miocinas durante a contração muscular esquelética, o que reforça a necessidade de constância na prática (Damaceno et al., 2024).
Impacto na Saúde Mental e Qualidade de Vida: A endometriose impacta severamente a saúde mental, levando a altos índices de depressão, ansiedade e frustração (Gomes et al., 2024; Rodrigues et al., 2025). Mulheres que praticam exercícios regularmente apresentam resultados superiores no componente "saúde mental", com melhor capacidade de lidar com o estresse e redução de sintomas depressivos (Gomes et al., 2024; Neumann et al., 2023). O exercício atua como um "modulador emocional", promovendo distração, interação social e controle da fadiga (Gomes et al., 2024). A literatura sugere que a prática precoce de atividades físicas pode inclusive atuar na prevenção da progressão da doença devido à melhora imunológica e regulação do eixo hipotálamo-hipófise-ovariano (Brito et al., 2024; Gomes et al., 2024).
3.3. Terapias Complementares (Acupuntura, Meditação e Auriculoterapia)
As Práticas Integrativas e Complementares (PICS) oferecem uma abordagem holística, tratando a mulher na sua totalidade — física, emocional e social (Damaceno et al., 2024; Mélo et al., 2025).
Acupuntura: Dentre as terapias complementares, a acupuntura é a que apresenta o maior corpo de evidências favoráveis para o alívio da dor pélvica crônica e da dismenorreia (Damaceno et al., 2024; Mirzaee; Ahmadi, 2021; Queda et al., 2023). A técnica atua estimulando o sistema nervoso, ativando a circulação sanguínea e promovendo a liberação de neurotransmissores e endorfinas que modulam a percepção da dor (Damaceno et al., 2024; Rodrigues et al., 2025). Estudos mostram que a acupuntura pode ser mais eficaz que tratamentos medicamentosos isolados no controle álgico, além de apresentar um impacto positivo na redução dos níveis do marcador sérico CA-125 (Damaceno et al., 2024; Mirzaee; Ahmadi, 2021; Queda et al., 2023). A acupuntura demonstra resultados duradouros, melhorando significativamente a qualidade de vida em múltiplos domínios (Queda et al., 2023).
Meditação e Mindfulness: Práticas de mindfulness (atenção plena) e meditação têm se mostrado ferramentas poderosas para abordar a sensibilização central e os impactos psicológicos da endometriose (Gomes et al., 2024; Miazga et al., 2024). Um estudo recente sobre terapia virtual baseada em mindfulness (MBSR) revelou melhoras estatisticamente significativas no bem-estar emocional, autoimagem e apoio social das pacientes (Miazga et al., 2024). Embora o impacto imediato na dor física possa ser menos pronunciado em curto prazo, a meditação capacita as mulheres com mecanismos adaptativos para responder ao estresse e à dor, reduzindo a sensação de impotência e o isolamento social (Miazga et al., 2024). O formato virtual dessas intervenções tem sido preferido pelas participantes por superar barreiras de acesso e promover um senso de comunidade e segurança (Miazga et al., 2024).
Auriculoterapia: A auriculoterapia, técnica que estimula pontos específicos na orelha, demonstrou eficácia no tratamento da dismenorreia e dos sintomas físicos e de humor da síndrome pré-menstrual (Mélo et al., 2025). Estudos comparativos indicam que a auriculoterapia pode ser tão ou mais eficaz que o ácido mefenâmico (analgésico padrão) no alívio da dor menstrual, com a vantagem de não apresentar os efeitos colaterais das drogas sintéticas (Mélo et al., 2025). A estimulação de pontos relacionados à analgesia, ansiedade e relaxamento muscular promove uma regulação neuro-humoral essencial para o equilíbrio do ciclo menstrual (Damaceno et al., 2024; Mélo et al., 2025).
3.4. Discussão Integrada
As evidências compiladas confirmam que a endometriose é uma condição complexa que exige um manejo multidisciplinar que ultrapasse a abordagem medicamentosa convencional (Gomes et al., 2024; Rodrigues et al., 2025; Porfírio et al., 2017). A integração de uma dieta anti-inflamatória, a prática regular de atividade física e o uso de PICS formam um tripé estratégico para a melhoria do bem-estar. (Damaceno et al., 2024; Gomes et al., 2024; Porfírio et al., 2017).
A alimentação atua na base biológica da doença, controlando a inflamação e a carga estrogênica (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Leal et al., 2024; Ribeiro et al., 2025). A atividade física complementa esse processo ao melhorar a resposta metabólica e imunológica, além de fornecer o suporte neuroquímico necessário para a saúde mental (Brito et al., 2024; Gomes et al., 2024; Neumann et al., 2023). As terapias complementares, como a acupuntura e o mindfulness, preenchem a lacuna do cuidado emocional e do manejo da dor crônica persistente, que muitas vezes não responde apenas à cirurgia ou aos hormônios (Damaceno et al., 2024; Miazga et al., 2024; Rodrigues et al., 2025).
Contudo, a literatura aponta para desafios na implementação dessas estratégias, como a falta de padronização metodológica nos estudos e obstáculos socioeconômicos que dificultam a adesão das mulheres a esses novos hábitos (Damaceno et al., 2024; Gomes et al., 2024; Queda et al., 2023; Teodoro; David, 2023). É imperativo que profissionais de saúde, especialmente nutricionistas, fisioterapeutas e psicólogos, atuem de forma coordenada para oferecer planos de cuidados personalizados e acessíveis (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Gomes et al., 2024; Habib et al., 2022; Ribeiro et al., 2025).
Em suma, a transição para um estilo de vida saudável e integrativo representa não apenas uma estratégia de alívio de sintomas, mas um caminho para o empoderamento feminino e a restauração da autonomia física e emocional das mulheres com endometriose (Gomes; Rocha; Lima, 2022; Mélo et al., 2025; Ribeiro et al., 2025).
4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DA LITERATURA
A análise da literatura deste estudo, fundamentadas na análise dos 18 artigos científicos, revela que a endometriose é uma condição ginecológica inflamatória crônica que exige um modelo de cuidado transcendente à abordagem medicamentosa ou cirúrgica isolada. As evidências confirmam inequivocamente que intervenções no estilo de vida — baseadas no tripé: alimentação, atividade física e terapias complementares — representam estratégias seguras e altamente eficazes para a restauração do bem-estar físico e emocional dessas mulheres.
A alimentação atua na base biológica da patologia; a adoção de dietas anti-inflamatórias e ricas em antioxidantes auxilia na redução do estresse oxidativo e na progressão das lesões, enquanto a restrição de gorduras trans e carnes vermelhas minimiza a exacerbação da dor. O Quadro 2 apresenta uma síntese das evidências com os principais achados da literatura, para fácil visualização.
Quadro 2. Síntese das evidências sobre o controle da alimentação.
Categoria | Principais achados | Mecanismo proposto | Principais referências |
Carne vermelha e processados | Maior risco de desenvolvimento e agravamento da endometriose (até 56% em consumo elevado). | Aumento do estresse oxidativo, inflamação e produção de estrógenos. | Gomes, Rocha e Lima (2022); Leal et al. (2024); Neumann et al. (2023); Teodoro e David (2023). |
Gorduras trans e ultraprocessados | Associados ao aumento de aproximadamente 48% no risco da doença. | Intensificação da resposta inflamatória sistêmica. | Leal et al. (2024); Neumann et al. (2023). |
Frutas e vegetais | Efeito protetor contra o desenvolvimento da endometriose. | Ação antioxidante, redução do estresse oxidativo e modulação hormonal. | Gomes, Rocha e Lima (2022); Leal et al. (2024); Neumann et al. (2023); Teodoro e David (2023). |
Fibras alimentares | Auxiliam no controle hormonal. | Redução da circulação entero-hepática do estrogênio e aumento da excreção hormonal. | Leal et al. (2024); Neumann et al. (2023). |
Ômega-3 | Redução da dor, da inflamação e melhora da saúde mental. | Competição com o Ômega-6 na produção de prostaglandinas e diminuição de citocinas inflamatórias. | Gomes, Rocha e Lima (2022); Leal et al. (2024); Neumann et al. (2023); Porfírio et al. (2017). |
Vitaminas C e E | Redução da dor pélvica e dos marcadores inflamatórios. | Ação antioxidante. | Damaceno et al. (2024); Gomes, Rocha e Lima (2022); Porfírio et al. (2017). |
Vitamina D | Evidências conflitantes quanto à suplementação. | Possível modulação imunológica e inflamatória. | Damaceno et al. (2024); Gomes, Rocha e Lima (2022); Teodoro e David (2023). |
Curcumina e Resveratrol | Potencial redução das lesões endometrióticas. | Ação anti-inflamatória, antioxidante e antiangiogênica. | Gomes, Rocha e Lima (2022); Leal et al. (2024); Neumann et al. (2023). |
Fonte: Elaborado pelos autores, 2026, com base nos estudos revisados.
Complementarmente, a prática regular de exercícios físicos promove uma regulação neuro-humoral essencial, agindo tanto no alívio álgico, quanto na mitigação de sintomas depressivos e ansiosos por meio da liberação de endorfinas. Para maior compreensão, o Quadro 3 informa os principais indícios encontrados.
Quadro 3. Síntese das evidências sobre atividade física e bem-estar.
Aspecto avaliado | Principais benefícios | Mecanismo fisiológico | Principais referências |
Exercícios aeróbicos | Redução da dor, melhora do condicionamento físico e da qualidade de vida. | Liberação de endorfinas e melhora da circulação sanguínea. | Brito et al. (2024); Gomes et al. (2024). |
Exercícios resistidos | Redução da inflamação e aumento da força muscular. | Produção de miocinas e melhora metabólica. | Brito et al. (2024). |
Alongamento e Yoga | Melhora da flexibilidade, redução da dor e do estresse. | Relaxamento muscular e equilíbrio neuroendócrino. | Brito et al. (2024); Damaceno et al. (2024); Mélo et al. (2025). |
Modulação hormonal | Redução da biodisponibilidade de estrogênios. | Aumento da SHBG circulante. | Brito et al. (2024); Mirzaee e Ahmadi (2021). |
Saúde mental | Redução da ansiedade, depressão e fadiga. | Liberação de neurotransmissores e melhora do bem-estar emocional. | Gomes et al. (2024); Neumann et al. (2023). |
Prevenção da progressão | Possível redução da evolução da doença. | Melhora imunológica e regulação do eixo hipotálamo-hipófise-ovariano. | Brito et al. (2024); Gomes et al. (2024). |
Fonte: Elaborado pelos autores, 2026, com base nos estudos revisados.
No âmbito das terapias complementares, a acupuntura consolida-se como a técnica mais robusta para a analgesia crônica, ao passo que práticas como mindfulness, Yoga e auriculoterapia capacitam a mulher com ferramentas cognitivas para lidar com a sensibilização central e o estigma da doença. No Quadro 4, é possível termos acesso às principais evidências sobre as terapias complementares.
Quadro 4. Síntese das evidências sobre terapias complementares.
Terapia complementar | Principais benefícios observados | Mecanismo de ação | Principais referências |
Acupuntura | Redução da dor pélvica, dismenorreia, melhora da qualidade de vida e redução do CA-125. | Liberação de endorfinas, modulação neural e melhora da circulação sanguínea. | Damaceno et al. (2024); Mirzaee e Ahmadi (2021); Queda et al. (2023); Rodrigues et al. (2025). |
Meditação/Mindfulness | Redução do estresse, ansiedade, isolamento social e melhora do bem-estar emocional. | Modulação da sensibilização central e fortalecimento das estratégias de enfrentamento. | Gomes et al. (2024); Miazga et al. (2024). |
Auriculoterapia | Redução da dor menstrual e melhora dos sintomas físicos e emocionais. | Estimulação neuro-humoral de pontos reflexos auriculares relacionados à analgesia e relaxamento. | Damaceno et al. (2024); Mélo et al. (2025). |
Papel das PICS | Complementação do tratamento convencional com abordagem integral da paciente. | Integração dos aspectos físicos, emocionais e sociais. | Damaceno et al. (2024); Mélo et al. (2025). |
Fonte: Elaborado pelos autores, 2026, com base nos estudos revisados.
Conclui-se que o manejo multidisciplinar, integrando nutricionistas, ginecologistas e psicólogos, é vital para otimizar a qualidade de vida e a fertilidade. Entretanto, a literatura sinaliza desafios na implementação, como obstáculos socioeconômicos e a carência de profissionais capacitados em Práticas Integrativas no sistema público. É urgente que tais estratégias sejam incorporadas às políticas de saúde de forma personalizada e acessível. Em última análise, a mudança no estilo de vida funciona como um mecanismo de empoderamento feminino, devolvendo à mulher a autonomia sobre seu corpo e a perspectiva de uma vida plena, apesar da cronicidade da endometriose.
5. PERSPECTIVAS FUTURAS
Embora a literatura analisada demonstre avanços na compreensão das intervenções relacionadas ao estilo de vida como estratégias complementares no manejo da endometriose, ainda existem lacunas científicas que limitam a consolidação de recomendações clínicas baseadas em evidências robustas. A maioria dos estudos apresenta delineamentos observacionais, amostras reduzidas e heterogeneidade metodológica, dificultando a comparação dos resultados e a elaboração de protocolos padronizados.
No âmbito da alimentação, observa-se consenso quanto aos potenciais benefícios de padrões alimentares anti-inflamatórios e do consumo de nutrientes antioxidantes. Entretanto, permanecem insuficientes os ensaios clínicos randomizados capazes de estabelecer relações de causalidade entre intervenções dietéticas e redução dos sintomas. São necessários estudos que definam a composição ideal das dietas, a duração das intervenções, a adesão em longo prazo e os efeitos sobre marcadores inflamatórios, perfil hormonal, microbiota intestinal, fertilidade e qualidade de vida. A suplementação de vitamina D, magnésio, curcumina e resveratrol também requer investigações para determinar doses, tempo de uso, segurança e efetividade clínica.
Em relação à atividade física, embora seus benefícios sobre dor, inflamação, saúde mental e qualidade de vida sejam descritos, ainda não há consenso sobre o tipo de exercício mais eficaz, sua intensidade, frequência e duração para diferentes perfis de pacientes. Estudos futuros devem comparar modalidades aeróbicas, resistidas, funcionais, fortalecimento do assoalho pélvico, Pilates, Yoga e programas combinados, considerando estágios da doença, dor crônica, infertilidade e comorbidades. Também são necessárias pesquisas longitudinais que investiguem se a atividade física pode modificar a progressão da doença, reduzir recidivas após tratamento cirúrgico e influenciar desfechos reprodutivos.
As terapias integrativas e complementares também representam um campo promissor. Embora a acupuntura apresente evidências para o controle da dor e melhoria da qualidade de vida, intervenções como auriculoterapia, mindfulness, meditação, técnicas respiratórias, musicoterapia e práticas corporais integrativas ainda possuem número limitado de estudos com elevado rigor metodológico. Futuras pesquisas devem investigar sua eficácia, mecanismos neurobiológicos, duração dos efeitos, relação custo-efetividade e integração aos protocolos convencionais.
Outra perspectiva relevante consiste na avaliação de programas multidisciplinares que associem alimentação, exercício físico, acompanhamento psicológico e práticas integrativas. Apesar de essas intervenções serem frequentemente recomendadas em conjunto, poucos estudos investigaram seus efeitos sobre os sintomas físicos, emocionais e sociais da endometriose. Ensaios clínicos que comparem intervenções isoladas e combinadas poderão contribuir para protocolos mais abrangentes e personalizados.
Também merece destaque a necessidade de ampliar pesquisas sobre aspectos psicossociais da doença. Questões relacionadas ao sono, fadiga crônica, função sexual, imagem corporal, produtividade laboral, relações interpessoais, impacto econômico e saúde mental permanecem subexploradas, apesar de influenciarem diretamente o bem-estar e a qualidade de vida.
Nos últimos anos, tecnologias digitais aplicadas à saúde têm surgido como ferramentas potencialmente úteis. Estudos futuros poderão investigar aplicativos móveis, plataformas de telemonitoramento, programas de telessaúde e intervenções digitais baseadas em inteligência artificial para educação em saúde, monitoramento de sintomas, adesão às mudanças no estilo de vida e apoio psicossocial.
Por fim, destaca-se a importância de abordagens baseadas na medicina personalizada. Considerando a heterogeneidade clínica da endometriose, futuras pesquisas devem identificar quais perfis de pacientes respondem melhor às diferentes intervenções, utilizando marcadores clínicos, hormonais, inflamatórios, metabólicos, genéticos e comportamentais. Essa perspectiva poderá contribuir para estratégias terapêuticas individualizadas e centradas nas necessidades de cada mulher.
Dessa forma, recomenda-se que futuras investigações priorizem estudos multicêntricos, longitudinais e ensaios clínicos randomizados com maior rigor metodológico, capazes de produzir evidências de alta qualidade sobre o impacto das intervenções no estilo de vida. O fortalecimento desse campo poderá subsidiar diretrizes clínicas mais consistentes e ampliar a incorporação de estratégias não farmacológicas no cuidado integral às mulheres com endometriose, favorecendo o controle da dor e da inflamação e a promoção do bem-estar físico, emocional e social.
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1 Mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Local do Centro Universitário Augusto Motta - UNISUAM.
2 Professor e Pesquisador do Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Local da UNISUAM.