Endometriosis; Irritable bowel
syndrome; Dietary; Probiotics;
Dysbiosis; Microbiome
Submetido:
06/11/2024
Aceito:
31/01/2025
1. Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto, Universidade de São
Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.
Conflitos de interesse:
Nada a declarar.
Autor correspond ente:
Julio Cesar Rosa e Silva
[email protected]
Como citar:
Hayashi LL, Bezan P, Troncon JK,
Meola J, Poli N eto OB, Nonino CB,
et al. Endometriose e síndrome
do intestino irritável: uma
associação real? O papel da
dieta, probióticos e microbioma.
Femina. 2025;53(2):144-9.
Endometriose e síndrome do intestino irritável: uma associação real? O papel da dieta, probióticos e microbioma
Endometriosis and irritable bowel syndrome: a real connection? The role of diet, probiotics, and the microbiome
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FEMINA 2025;53(2):144-9
INTRODUÇÃO
A dor pélvica crônica (DPC) é definida como sensação
de dor originada nos órgãos ou estruturas pélvicas
durando ao menos seis meses. Frequentemente é as -
sociada a consequências cognitiva, comportamental,
sexual e emocional negativas, bem como a sintomas
sugestivos de disfunções do trato urinário baixo, trato
intestinal, assoalho pélvico e miofascial e disfunção gi-
necológica.(1) A prevalência global é entre 2% e 27% da
população.(2)
Desordens ginecológicas, gastrointestinais, uroló-
gicas, musculoesqueléticas e psicológicas levam a po-
tenciais mecanismos associados à sensibilização do
sistema nervoso, ocasionando sintomas álgicos muitas
vezes originários a esses diversos órgãos, dificultando o
manejo com os tratamentos convencionais.(2) É estimado
que apenas 30% das etiologias atribuídas à DPC sejam
primariamente ginecológicas. Dessas, a endometriose é
a principal, com taxa de 24%-40%.(3)
Esta revisão narrativa teve por objetivo rever na li-
teratura a presença de sintomas intestinais associados
à endometriose e sua relação com a síndrome do in-
testino irritável (SII). Analisar a importância do micro-
bioma intestinal e genital na gênese da endometriose e
SII, bem como o impacto da dietética no tratamento dos
sintomas relacionados a essas doenças.
MÉTODOS
As buscas foram realizadas nas bases de dados eletrô-
nicas PubMed, Cochrane e SciELO, no período de 2014
a 2024. Foi utilizada uma estratégia de busca incluindo
os seguintes termos e suas variações na língua ingle-
sa: “endometriosis”, “irritable bowel syndrome”, “dietary”,
“probiotics” e “microbiome”. Apenas artigos publicados
na íntegra e na língua inglesa foram considerados e tria-
dos com base nos seus títulos e resumos. Foram sele-
cionados 17 artigos lidos na íntegra para a elaboração
da revisão narrativa.
ENDOMETRIOSE
Endometriose é uma doença ginecológica crônica, sis -
têmica e inflamatória caracterizada pela presença de
glândulas e/ou estroma endometrial fora do útero. (4,5)
Afeta ao menos 10% das mulheres em idade reprodutiva,
ocasionando sintomas como dor pélvica, dismenorreia,
dispareunia e infertilidade.(6)
Considerada uma doença estrógeno-dependente e
multifatorial, o tecido endometrial ectópico originário
da menstruação retrógrada provoca uma resposta infla-
matória local que ocasiona adesão e proliferação celu-
lar, estimulação da vascularização e quebra da resposta
imune protetora, fatos que explicam em parte a origem
da doença.(5-8)
QUADRO CLÍNICO
A dismenorreia tende a ser o primeiro sintoma do início
da doença, que pode evoluir com dispareunia de pro-
fundidade, disquesia, disúria e DPC (acíclica), bem como
infertilidade.(9,10)
Sintomas intestinais, como disquesia, constipação cícli-
ca, maior tempo para evacuação e outras dores acíclicas
gastrointestinais gerais, são mais associados a pacientes
com endometriose infiltrativa profunda intestinal e, de for-
ma curiosa, os mesmos sintomas digestivos também são
observados na SII, que frequentemente leva à confusão e
ao atraso no diagnóstico dessas duas doenças.(11,12)
TRATAMENTO
Os tratamentos voltados para a endometriose envolvem
basicamente três modalidades terapêuticas: (I) farma -
cológica, (II) cirúrgica e (III) técnicas de reprodução as -
sistida para tratamento da infertilidade.(6) A indicação do
tratamento deve ser individualizada e exige ainda um
manejo multimodal e interdisciplinar, incluindo terapias
não medicamentosas como dieta, atividade física, su-
porte psicológico, terapia cognitivo-comportamental e
fisioterapia.(6,10,13)
Intervenções dietéticas têm demonstrado impacto
positivo nos sintomas relacionados à endometriose por
meio da redução do estresse oxidativo. (6) Revisões sis-
temáticas recentes sugerem que a terapêutica voltada
para o microbioma pode, potencialmente, ser utilizada
num futuro próximo para restaurar o equilíbrio dos mi-
crobiomas e aliviar a inflamação crônica que é comu-
mente observada na endometriose.(10,14) Estudos contro-
lados vêm observando significativa queda nos escores
de dismenorreia e dor crônica após tratamento suple-
mentar com probióticos como Lactobacillus, em espe-
cial o L. gasseri.(10)
ENDOMETRIOSE INTESTINAL
Alterações gastrointestinais estão presentes em 5%-15%
das pacientes com endometriose. (4) A maioria das mu-
lheres que sofrem de DPC e sintomas intestinais asso-
ciados à menstruação tem incidência maior que a usual
de endometriose.(15)
A endometriose intestinal é caracterizada pela en-
dometriose infiltrando ao menos a camada muscular
do intestino, mais comumente o retossigmoide, e afe-
ta 1 a cada 10 mulheres com endometriose, apresen-
tando impacto na saúde pública. (12,13) A maioria dessas
mulheres apresenta sintomas cíclicos ou acíclicos ca -
racterizados por distensão abdominal, cólica intesti-
nal, diarreia ou constipação, sem sinais de obstrução
da passagem intestinal. (13) Sintomas como disquesia e
constipação cíclicas e maior tempo para evacuação são
mais associados às pacientes com endometriose retal,
enquanto a endometriose infiltrativa profunda intesti-
nal está associada a dores acíclicas mais frequentes e
dores gastrointestinais gerais. (11)
Hayashi LL, Bezan P, Troncon JK, Meola J, Poli Neto OB, Nonino CB, et al.
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A patogênese desses sintomas gastrointestinais não é
clara, mas sugere-se que lesões endometrióticas na pa-
rede intestinal fazem aumentar níveis de prostaglandi-
nas, levando a alteração do funcionamento intestinal.(16)
Há grande proximidade entre as inervações dos ór -
gãos viscerais por meio do sistema nervoso central. Essa
convergência nervosa contribui para a coexistência de
estados de dor afetando mais do que um órgão, cha -
mada de reatividade cruzada, podendo explicar os sin-
tomas gastrointestinais na endometriose. De maneira
geral, sintomas gastrointestinais não são relacionados
à localização das lesões de endometriose ou outras ca-
racterísticas, o que torna difícil identificar os preditores
e a etiologia desses sintomas na endometriose.(16)
A incidência de constipação intestinal nas mulheres
com endometriose intestinal chega a 45%. Essas mulhe-
res apresentam mais dispareunia, DPC e disquesia, além
de maior consistência das fezes e pior qualidade de vida
e da função sexual, comparadas a mulheres com endo-
metriose sem constipação.(13,17)
SÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL
A SII é uma doença de interação cérebro-intestinal ca -
racterizada por dor abdominal e alteração do hábito
intestinal.(11,16) Tem prevalência global em torno de 10%,
enquanto na atenção secundária especializada em dis -
funções gastrointestinais a prevalência dessa desordem
constitui 35% dos pacientes, gerando significativo impac-
to negativo na saúde pública e na qualidade de vida.(11,15,16)
A fisiopatologia da SII ainda não é clara, mas há in-
dícios de que alterações da motilidade e secreções
digestivas, hipersensibilidade visceral e alterações no
sistemas endócrino, imune e da microbiota intestinal
estejam envolvidas. (12,16) Tanto na endometriose como
na SII, a inflamação com aumento de citocinas infla -
matórias e hipersensibilidade visceral fazem parte do
mecanismo fisiopatológico da doença.(11) No entanto, na
endometriose há atividade inflamatória com efeito sis -
têmico, enquanto a suposta inflamação da SII está mais
relacionada à parede intestinal, com aumento do núme-
ro de linfócitos e mastócitos.(16)
Inflamação é uma explicação para a sensibilização
visceral, que significa aumento exagerado na sensação
de dor relacionada ao órgão visceral, podendo contribuir
para os sintomas tanto da SII como da endometriose.(16)
Pacientes com endometriose apresentam 2-3 vezes
maior risco de serem diagnosticadas com SII, quando
comparadas às mulheres sem a doença.(15,16) Uma vez que
não apresenta achados objetivos, a SII tem o seu diag -
nóstico baseado em sintomas avaliados por meio dos
critérios de Roma IV.(11)
De forma semelhante à endometriose, a SII apresen-
ta sintomas inespecíficos, como dor abdominal recor -
rente, constipação e cólicas, e carece de marcadores
diagnósticos não invasivos. (15) Dessa maneira, com um
método diagnóstico não simples e pouco custo-efetivo,
muitas pacientes com endometriose e sintomas gas -
trointestinais se enquadram nos critérios de Roma e
são erroneamente diagnosticadas com SII. (11,15) Essa so-
breposição de sintomas faz pesquisadores questiona -
rem se mulheres com endometriose são erroneamente
diagnosticadas com SII ou se sofrem, de fato, com as
duas comorbidades.(11,15)
IMUNOPATOLOGIA DA ENDOMETRIOSE E
SÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL
Acredita-se que a inflamação, o estresse oxidativo e al -
terações imunológicas contribuem para o desenvolvi-
mento da endometriose, (5,8) promovendo um ambiente
que permite a aderência da célula endometrial ao te-
cido e sua proliferação, levando a endometriose e pro-
gressão da doença.(8)
O estresse oxidativo parece ser a chave para esse
processo inflamatório. (8) Quando ocorre o desbalanço
de antioxidantes versus espécies reativas de oxigênio
(EROs) com o predomínio deste último, ocorre o estresse
oxidativo. Na endometriose, esse desequilíbrio vem dos
eritrócitos da cavidade peritoneal, e os seus produtos
tóxicos heme e ferro levam à formação de EROs. Esse es-
tresse oxidativo ocasiona não apenas dano celular, mas
também da função celular, ao ativar ou inibir a expres -
são de genes e secreção de citocinas pro-inflamatórias,
contribuindo para o processo de adesão, proliferação e
neovascularização na endometriose peritoneal.(8)
Em parte, o possível mecanismo fisiopatológico na for-
mação dessa doença pode ser explicado pelo alto nível
de inflamação sistêmica ocasionado pela dieta pró-infla-
matória, aumentando os níveis de PCR, IL-6, IL-8, TNF-a,
citocinas (ERK), leucócitos e neutrófilos, contribuindo
ainda mais com a implantação das células endometriais,
seu crescimento e invasão, o que é intensificado pelas
propriedades angiogênicas do fator de crescimento en-
dotelial vascular (VEGF) das lesões ectópicas.(4-6,8,14,18)
ENDOMETRIOSE, SÍNDROME DO
INTESTINO IRRITÁVEL E ALIMENTAÇÃO
Apesar de haver evidências do potencial dietético em
promover melhora dos sintomas da endometriose, elas
ainda são fracas. Terapias voltadas para o estilo de vida
ainda não fazem parte dos principais guidelines interna-
cionais e não são rotineiramente recomendadas pelos
profissionais de saúde.(19)
Desordens crônicas no sistema digestivo influen-
ciam no comportamento alimentar dessas pacientes,
que, com intuito de reduzir os sintomas, frequente-
mente se submetem a restrições alimentares que po-
dem levar à desnutrição, que, por sua vez, exacerba as
desordens digestivas e os também transtornos alimen-
tares, como a anorexia nervosa, bulimia e transtorno
da compulsão alimentar periódica, reforçando a impor-
tância da orientação nutricional de qualidade a essas
pacientes.(12,19)
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Desordens alimentares e SII são mais prevalentes em
pacientes com endometriose do que na população ge-
ral.(19) Mulheres com endometriose apresentam baixo
índice de massa corpórea (IMC) ou apresentam baixo
peso.(9) De forma lamentável, as principais fontes de in-
formação sobre estilo de vida e mudanças dietéticas para
as portadoras de endometriose ainda advêm da internet
ou de informações não científicas. Dietas autoadministra-
das são muito comuns nessas pacientes e, além da não
melhora dos sintomas álgicos, podem levar a frustração,
falta de esperança, perda de peso excessivo e ansiedade
relacionada à leitura dos rótulos dos alimentos.
O padrão alimentar é reconhecido como um impor -
tante fator influenciador no bem-estar físico. Além de
auxiliar no controle de peso, o bom hábito alimentar
contribui para a redução do risco de diversas doenças
que impactam a qualidade de vida relacionada à saúde,
além de prevenir que os sintomas de dor se agravem.(2,5)
Sendo uma entidade complexa de compostos anti ou
pró-inflamatórios, a dieta desempenha papel decisivo
na modulação da inflamação sistêmica. (18) O alto con-
sumo de álcool, gorduras trans ou insaturadas e carnes
vermelhas está relacionado ao aumento do risco de en-
dometriose. Em contraste, o maior consumo de ômega 3,
vitamina D, frutas, particularmente as cítricas, e, durante
a adolescência, de lácteos está relacionado a menor ris-
co da doença.(18)
Mulheres com alto nível sérico de ácido graxo eico-
sapentaenoico (EPA) demonstraram redução de 82%
de diagnóstico de endometriose, quando comparadas
àquelas com níveis menores. (5) Por outro lado, Liu et
al. (2023)(18) concluíram que pacientes com ingestão de
maior Índice Inflamatório Dietético tiveram 57% maior
risco de endometriose, sugerindo que intervenções
baseadas em dieta anti-inflamatória podem, eventual -
mente, prevenir a endometriose.
Pacientes com SII estão mais associados a intolerân-
cia a frutose e lactose, portanto é recomendado que
controlem o consumo dessas substâncias, bem como
monitorem o consumo de tomates, soja, condimentos,
pimenta, cafeína, alimentos ricos em sódio e frutas cítri-
cas. Cafeína, álcool, glúten e FODMAPs (oligossacarídeos
fermentáveis, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis)
parecem reduzir a abundância de bifidobactéria intes -
tinal, em comparação ao controle, e devem ser tempo-
rariamente evitados nas pacientes com DPC, particular-
mente quando a DPC está associada ao agravamento
dos sintomas de SII.(2,20)
Segundo metanálise realizada por Baradwan et al.
(2024)(6) envolvendo 541 mulheres em 10 estudos clínicos
randomizados, sugere-se que a dieta antioxidante en-
volvendo vitamina D, ômega 3, resveratrol, melatonina
e combinação de antioxidantes versus placebo reduz a
dismenorreia de forma significante e melhora a dor pél-
vica, apesar de não promover melhora da dispareunia.
Da mesma forma, a mais recente metanálise con-
cluiu que o uso de suplementos, comparado ao placebo,
também foi associado à redução da dismenorreia (di-
ferença média: 1,95; intervalo de confiança [IC] de 95%:
-3,78 a -0,13). No entanto, não apresentou melhora signi-
ficativa da DPC (diferença média: -2,22; IC de 95%: -4,99 a
0,55) e da dispareunia (diferença média: -2,56; IC de 95%:
-5,22 a 0,10). Os autores sugerem que esses resultados
devem ser analisados com parcimônia, uma vez que se
tratam de estudos de alta heterogeneidade e modera -
do/alto risco de vieses.(20,21)
Evidências sugerem que o resveratrol atua reduzindo
a inflamação, regulando a apoptose e viabilidade celu-
lar, a proliferação, a adesão e invasão celular, a angiogê-
nese e o metabolismo lipídico envolvidos na patogêne-
se da endometriose, reduzindo o crescimento do tecido
endometriótico. O maior consumo de ácido graxo ômega
3 e 6, além do efeito anti-inflamatório, também possui
efeito antitumorogênico com ação antiproliferativa e
pró-apoptótica.(5)
A efetividade da vitamina D em reduzir a dismenor -
reia associada a endometriose ocorre por meio de suas
propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras.
Por outro lado, a melatonina também produz um poten-
te efeito antioxidante, combatendo o estresse oxidativo,
cujos produtos são pivôs da exacerbação da inflamação
e da dor por meio do dano celular e do aumento da
sensibilidade da dor.(6)
No mesmo contexto, as vitaminas C e E são reconhe-
cidas por regularem níveis de ferro e reduzirem o es -
tresse oxidativos, devido ao seu efeito antioxidante, e
parecem reduzir a dismenorreia e a DPC.(6,21)
O lipopolissacarídeo (LPS) aumenta o processo infla-
matório, contribuindo para a gênese da endometriose. A
suplementação do ácido alfalipoico (ALA) promove a re-
dução do LPS e da agregação de macrófagos na parede
intestinal, minimizando a perturbação da sua microbio-
ta. A administração de misturas probióticas também tem
sido efetiva em reduzir lesões de endometriose e danos
à mucosa intestinal em estudo animal.(7)
Há mínima evidência da eficácia do uso da medicina
herbal e não herbal na melhora da dismenorreia, tais
como o feno-grego, gengibre, valeriana, zataria, óleo de
peixe, vitamina B1 e sulfato de zinco.(21)
MICROBIOTA INTESTINAL
O aumento no entendimento acerca da microbiota e da
disbiose imunológica em diversas doenças vem trazen-
do à luz a possibilidade da sua participação no desen-
volvimento da endometriose. A microbiota é definida
como a comunidade de microrganismos que moram no
corpo humano (dentro ou fora), a qual inclui bactérias,
fungos, eucariotos e vírus e organismos unicelulares e
anucleados (arqueias).(8)
A disbiose é definida como um desbalanço ocorrido
nessa microbiota, que, além dos microrganismos, é ro-
deada de elementos estruturais, metabólitos, molécu-
las sinalizadoras e condições ambientais que garantem
a função imunológica, metabólica e epitelial saudável
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desse local. A quebra desse equilíbrio pode ocasionar
translocação de micróbios e seus metabólitos para dife-
rentes sítios do corpo e desencadear respostas imunes e
inflamatórias que estão envolvidas em diversas doenças
associadas a desordens metabólicas e neurológicas, ar-
trite, psoríase, doença inflamatória intestinal e câncer.(8)
Considerado um fator de confusão, o termo microbio-
ma refere-se ao coletivo de grupos de microrganismos,
ou seja, ao coletivo de genomas desses micróbios que
vivem em um habitat ou local específico, incluindo mi-
crorganismos comensais, simbióticos e patogênicos.(7,8,10)
É compreensível que o microbioma no corpo humano
apresente diferenças na população de micróbios, como,
exemplo clássico, o trato gastrointestinal. O microbioma
intestinal tem um grande número de microrganismos
que desempenham importantes funções nos processos
metabólicos, imunológicos, neuronais e endócrinos do
corpo humano.(7,10)
Estima-se que o número de bactérias em relação ao
número de células do corpo humano adulto (pesando 70
kg) chegue à taxa de 1:1. Isso destaca o potencial impacto
que as células bacterianas têm no organismo, auxilian-
do no metabolismo e na maturação do sistema imune.(10)
Estudos vêm demonstrando alteração na microbiota
intestinal, líquido peritoneal e trato reprodutivo de mu-
lheres com endometriose, comparadas a mulheres sau-
dáveis.(8,10) Não fica definido se essas alterações estão
associadas à causa ou à consequência da doença. Por
outro lado, a disbiose e as infecções no trato genital de
mulheres podem induzir mudanças genéticas e epige-
néticas, levando ao aumento do estresse oxidativo e a
mudanças na resposta imune que apresentam um signi-
ficativo papel na formação da doença.(8)
A disbiose intestinal já foi relacionada tanto à gra -
vidade da SII como à inflamação intestinal. Da mesma
maneira, está relacionada à desregulação do sistema
imune e à alteração no metabolismo do estrogênio em
pacientes com endometriose.(12)
Na maioria dos humanos saudáveis, a microbiota in-
testinal é dominada por bactérias, especialmente de dois
filos dominantes – Bacterioidetes e Firmicutes –, compon-
do 95% do total.(8) A disbiose, em sua maioria, é decorren-
te do desequilíbrio desses dois filos, que representam as
populações de Gram-positivos e Gram-negativos.(14)
A relação de Firmicutes e Bacteroidetes está aumen-
tada em pacientes com SII, em comparação ao controle
intestinal de pacientes saudáveis.(14,22) Mulheres com en-
dometriose têm 50% maior risco de apresentar doença
inflamatória intestinal, evidenciando uma sólida relação
entre resposta imunológica intestinal e a injúria ocasio-
nada pela endometriose.(4,14)
Segundo revisões sistemáticas, a microbiota intes -
tinal de mulheres com endometriose é predominada
pelos filos Actinobacterias, Firmicutes, Proteobacterias
e Verrucomicrobia, enquanto o filo Lactobacillaceae foi
significativamente reduzido nessas mulheres, em com-
paração ao controle.(8,14)
Além da disbiose intestinal, pacientes com endome-
triose, dor pélvica e dispareunia também podem ter a
assinatura microbiana do trato reprodutor alterada, con-
ceito conhecido como “microbiota endometriótica”.(8,10,14)
Uma vez reduzidas as proporções de Lactobacillus sp.
que protegem o hospedeiro contra patógenos, em as -
sociação ao aumento de espécies oportunistas que se
sugere estarem associadas a inflamação, desregulação
imune e disbiose tanto da vagina como do intestino,
cria-se um microbioma que pode estar envolvido na
progressão da endometriose, em particular por meio da
redução nos níveis de Bacteroidetes.(7,10,14)
Experimentos em animais sugerem que a administra-
ção de antibióticos, em especial o metronidazol, reduz
o tamanho e a progressão das lesões de endometriose,
além de modificar a diversidade bacteriana da micro-
biota intestinal de camundongos com endometriose in-
duzida cirurgicamente.(22)
Estudos recentes têm demonstrado que a adminis -
tração de suplementos, antibióticos e substâncias es -
pecíficas pode efetivamente modular a composição das
bactérias intestinais e, consequentemente, reduzir a res-
posta inflamatória, contribuindo para reduzir a quanti-
dade e o tamanho das lesões endometrióticas.(7,14)
Apesar de estudos em animais sugerirem uma ligação
entre microbiota intestinal e endometriose, nenhuma
relação de causa-efeito foi formalmente estabelecida
entre disbiose e endometriose em humanos. Estabelecer
o possível mecanismo de relação entre esses fatores
poderia auxiliar no desenvolvimento de estratégias pre-
ventivas ou terapêuticas.(12)
O PAPEL DO MICROBIOMA NA
PATOGÊNESE DA ENDOMETRIOSE
O efeito da disbiose pode contribuir para a patogêne-
se da endometriose via inflamação e modulação da
imunidade, mostrando a importância do microbioma
no desenvolvimento da doença. (7,8,10,14) Também pode in-
fluenciar o desenvolvimento da endometriose por meio
da alteração do metabolismo do estrogênio. Uma parte
do microbioma, também conhecida como estroboloma,
é responsável por metabolizar o estrogênio e, quando
está em disbiose, o faz de forma alterada, aumentando
os níveis circulantes de estrogênio no corpo.(8)
O microbioma intestinal produz vitaminas K e B12, que
auxiliam na integridade da mucosa intestinal, reparo epi-
telial, angiogênese e processo de imune.(10) As alterações
decorrentes da disbiose levam a respostas imunes que
resultam no descontrole de expressões celulares, aumen-
tando a produção de citocinas pró-inflamatórias como a
IL-6, IL-8, VEGF e supressão da resposta imune celular. A
progressão da endometriose pode correr paralela a essas
ocorrências, num estado de inflamação crônica, aderên-
cias celulares e angiogênese ao longo do tempo.(14)
A favor da teoria da “contaminação bacteriana”, postula-
-se que haja aumento na concentração de Escherichia coli
no sangue menstrual de mulheres com endometriose.(10)
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Essa contaminação do sangue, que também pode ocorrer
com Proteobacteria, pode ser fonte constante de endoto-
xinas bacterianas ou lipopolissacarídeos na cavidade peri-
toneal, ocasionando inflamações que desencadeiam uma
série de mediadores inflamatórios secundários.(8,10)
O aumento de citocinas pró-inflamatórias e o es -
tresse relacionado à dor na endometriose aumentam a
permeabilidade intestinal. Essa desregulação está for -
temente associada a redução da produção de ácidos
graxos de cadeia curta, o butirato, que apresenta papel
importante na manutenção da barreira intestinal, na
amortização imunológica e na otimização do funciona -
mento mitocondrial.(7,23)
Diversas classes de bactérias Gram-negativas pro-
dutoras de betaglucoronidase estão aumentadas na
microbiota de pacientes com endometriose. A betaglu-
coronidase está relacionada à proliferação do estroma
endometrial e ao aumento do tamanho das lesões en-
dometrióticas em camundongos e, dessa maneira, está
sendo investigada como tendo possível participação na
patogênese da endometriose. Diversos metabólicos, in-
cluindo o ácido quínico, foram identificados em níveis
aumentados nas fezes de camundongos com endome-
triose, e foi demonstrado que esses metabólitos são ca-
pazes de aumentar significativamente a proliferação de
células epiteliais endometrióticas.(7)
CONCLUSÃO
Muitas evidências sugerem que o estilo de vida, princi-
palmente aquele relacionado aos aspectos nutricionais,
está significativamente relacionado à gênese da endo-
metriose e à SII, bem como ao processo da dor crônica
secundária a essas enfermidades. A quase totalidade dos
estudos foi conduzida em modelos animais ou baseada
em análise retrospectiva, não possibilitando a definição
exata da relação entre causa e efeito. Explorar a ligação
entre endometriose e SII e os aspectos relacionados a
intervenções nutricionais e ao uso de probióticos nas
pacientes com essas comorbidades inflamatórias crô-
nicas é de grande importância para trazer informações
acerca da possibilidade de tratamentos não farmacoló-
gicos, a fim de oferecer novos caminhos para avançar na
compreensão e tratamento da endometriose.
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